Onde Existe Amor, Deus Aí Está e Outras Histórias Leon Tolstói Onde Existe Emor, Deus Aí Está e Outras Histórias 01 Onde existe amor, Deus aí está 02 Os três eremitas 03 Trabalho, morte e enfermidade 04 Dois Velhos 05 De quanta terra precisa um homem ONDE EXISTE AMOR, DEUS AÍ ESTÁ (1885) O sapateiro Martin Avdeitch morava na cidade. Vivia num porão, num quarto com uma janela. A janela dava para a rua. Pela janela, viam-se as pessoas passando; embora só se vissem os pés, Martin Avdeitch reconhecia as pessoas pelas botas. Fazia muito tempo que Martin Avdeitch morava no mesmo lugar e tinha muitos conhecidos. Era raro o par de botas que já não tivesse parado em suas mãos uma ou duas vezes. Em alguns, trocava a sola, em outros, punha remendos, em outros, refazia a costura, em outros, fazia uma biqueira nova. E muitas vezes via pela janela o fruto de seu trabalho. Tinha muito trabalho, porque Avdeitch trabalhava com esmero, usava material bom, não usava material inferior e cumpria sua palavra. Se podia fazer no prazo, fazia, se não, ele não tentava enganar, dizia logo. E todos conheciam Avdeitch e nunca lhe faltava trabalho. Avdeitch sempre foi um homem bom, mas na velhice passou a pensar mais na própria alma e a se aproximar de Deus. Ainda no tempo em que Martin morava na casa do patrão, sua esposa morreu. A mulher lhe deixou um filho de três anos. Os filhos deles não sobreviveram. Os mais velhos tinham todos morrido antes. No início, Martin quis dar o filhinho para uma irmã que vivia no campo, depois teve pena. Pensou: “Vai ser difícil para o meu Kapitochka crescer no meio de outra família, vou deixá-lo comigo mesmo”. E Avdeitch saiu da casa do patrão e foi morar com o filho num quarto. Mas Deus não lhe deu sorte com os filhos. Assim que o menino cresceu um pouco, passou a ajudar o pai e lhe deu mais alegria, uma doença atacou Kapitochka, o menino caiu de cama, ardeu em febre uma semana e morreu. Martin enterrou o filho e se desesperou. E tanto se desesperou que passou a se queixar de Deus. O abatimento de Avdeitch era tamanho que mais de uma vez pediu a Deus sua morte e censurou a Deus por não ter levado a ele, um velho, em lugar de seu filho único e querido. Avdeitch parou de ir à igreja. E um dia um velho conterrâneo de Avdeitch apareceu em sua casa – já estava peregrinando havia oito anos. Avdeitch conversou com ele e começou a queixar-se de seu infortúnio: –Nem tenho mais vontade de viver, homem de Deus – disse ele. – Quem me dera morrer. É só isso que peço a Deus. Agora me tornei um homem sem esperança. E o velhinho lhe disse: –O que você diz não é bom, Martin, não podemos julgar os assuntos de Deus. Não vivemos pela nossa razão, mas pelo juízo divino. Deus julgou que seu filho devia morrer e você devia viver. Isso quer dizer que assim é melhor. O motivo de você se desesperar tanto é porque quer viver para sua própria alegria. –Mas para que viver, então? – perguntou Martin. E o velhinho disse: –É preciso viver para Deus, Martin. Ele lhe deu a vida, é preciso viver para Ele. Quando começar a viver para Ele, não terá nenhum motivo para se afligir e tudo vai parecer mais fácil. Martin ficou calado e depois disse: –E como se faz para viver para Deus? E o velhinho respondeu: –Cristo nos mostrou como se faz para viver para Deus. Sabe ler? Compre o Evangelho e leia, e aprenda a viver para Deus. Lá está claro. E aquelas palavras se gravaram no coração de Avdeitch. No mesmo dia, ele foi comprar um Novo Testamento em letras grandes e começou a ler. Avdeitch quis ler só nos feriados, mas, quando começou, sentiu-se tão bem que passou a ler todo dia. Às vezes lia tanto que consumia todo o querosene da lamparina e mesmo assim não conseguia largar o livro. E desse modo Avdeitch lia toda noite. Quanto mais lia, mais claro compreendia o que Deus queria e como se devia viver para Deus; e seu coração ficava cada vez mais leve. Antes, acontecia de deitar-se para dormir e ficar gemendo, soluçando, pensando o tempo todo em Kapitochka, mas agora apenas dizia: “Glória a Ti, glória a Ti, Senhor! Seja feita Tua vontade!”. Desde então, toda a vida de Avdeitch se transformou. Antes, ele costumava passar os feriados na taberna, beber chá, e não recusava uma vodcazinha. Antigamente, bebia muito com algum conhecido e, ainda que não se embebedasse, saía da taberna alegre e falava bobagens: batia boca com os outros, xingava. Agora tudo isso havia ficado para trás. Sua vida se tornou mais serena e alegre. De manhã, sentava-se para trabalhar; uma vez terminado o serviço, tirava a lamparina do gancho, colocava na mesa, pegava o livro na estante, abria e ficava lendo. E quanto mais lia, mais entendia e o coração ficava mais claro e alegre. Certa vez, Martin leu até mais tarde. Lia o Evangelho de Lucas. Leu o capítulo VI e os versículos: “A quem te ferir numa face, oferece a outra; a quem te arrebatar o casaco, não recuses a camisa. Dá a quem pedir e não peças de volta o que te for tirado. E como quiseres que os outros te façam, assim também faz a eles”. Mais adiante leu os versículos em que o Senhor diz: “Por que me chamais de Senhor, Senhor!, mas não fazeis o que digo? Vou mostrar-vos a quem é comparável todo aquele que vem a mim, escuta as minhas palavras e as põe em prática. É comparável a um homem que, ao construir uma casa, cavou, aprofundou e assentou o alicerce sobre a rocha. Veio a enchente, a torrente deu contra essa casa, mas não conseguiu derrubá-la, porque tinha seus alicerces na rocha. Mas quem escuta e não pratica se parece com o homem que construiu sua casa ao rés do chão, sem alicerce. A torrente deu contra ela, e logo desabou; e foi grande a sua ruína.” Avdeitch leu essas palavras e sentiu alegria na alma. Tirou os óculos, colocou sobre o livro, apoiou os cotovelos na mesa e pôs-se a pensar. E passou a avaliar sua vida segundo aquelas palavras. E pensou: “Minha casa está assentada na rocha ou na areia? É boa, como se estivesse na rocha. E fácil ficar nela sozinho, parece que fiz tudo como Deus manda, mas se a gente se distrair, vai pecar de novo. Vou continuar sempre assim. É tão bom. Que Deus me ajude!”. Pensou assim, quis deitar-se, mas teve pena de separar-se do livro. E começou a ler o sétimo capítulo. Leu sobre o centurião, leu sobre o filho da viúva, leu sobre a resposta aos discípulos de João e chegou à passagem em que o fariseu rico convidou o Senhor para ir à sua casa e leu como a mulher pecadora passou óleo nos pés do Senhor, lavou-os com lágrimas e como Ele a redimiu. E chegou ao versículo 44 e leu: E, apontando para a mulher, disse a Simão: “Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não me derramaste água nos pés; mas ela regou meus pés com lágrimas e enxugou-os com os cabelos. Tu não me beijaste, mas ela, desde que entrei, não parou de beijar meus pés. Tu não derramaste óleo na minha cabeça; mas ela ungiu meus pés com perfume”. Leu esses versos e pensou: “Não derramou água nos pés, não deu beijos, não untou a cabeça com óleo…”. E Avdeitch tirou os óculos de novo, colocou sobre o livro e pôs-se a pensar outra vez. “Está bem claro que o fariseu era como eu. Também ele, me parece, só pensava em si mesmo. Pensava em beber chá, ficar aquecido, no conforto, em vez de pensar no seu hóspede. Pensava em si e não tinha cuidado com o hóspede. E quem é o hóspede? O próprio Senhor. Se viesse à minha casa, será que eu faria o mesmo?” E apoiou os cotovelos na mesa e nem notou quando adormeceu. –Martin! – de repente, algo pareceu respirar bem junto de seu ouvido. Martin teve um sobressalto em seu sono. –Quem é? Virou-se, olhou para a porta: ninguém. Cochilou de novo. De repente ouviu bem nítido: –Martin, ei, Martin! Amanhã irei para a rua, preste atenção. Martin acordou, levantou-se da cadeira, esfregou os olhos. Ele mesmo não sabia se tinha ouvido aquela voz num sonho ou acordado. Apagou a lamparina e foi deitar. De manhã, Avdeitch levantou-se antes do raiar do sol, rezou, acendeu o fogo da estufa, fez a sopa de repolho e o mingau, acendeu o samovar, vestiu o avental e sentou-se junto à janela para trabalhar. Avdeitch ficou trabalhando, enquanto pensava o tempo todo no dia anterior. E pensava duas coisas: ora pensava que tinha sido uma ilusão, ora pensava que ouvira a voz de verdade. “Bem, essas coisas acontecem”, pensava. Martin estava sentado junto à janela e ficava mais tempo olhando pela janela do que trabalhando, e quando passava alguém com botas desconhecidas, até se curvava para olhar pela janela e ver não só os pés, mas também o rosto. Passou um porteiro de botas novas, de feltro, passou um aguadeiro, depois um velho soldado do tempo do tsar Nicolau surgiu bem na frente da janela, com velhas botas de feltro forradas e com uma pá nas mãos. Pelas botas, Avdeitch o reconheceu. O velho se chamava Stepánitch e morava por caridade na casa de um comerciante vizinho. Sua obrigação era ajudar o porteiro. Na frente da janela de Avdeitch, Stepánitch começou a limpar a neve. Avdeitch olhou um pouco para ele e se ocupou de novo com o trabalho. “Pelo visto, a idade está me deixando de miolo mole”, riu Avdeitch de si mesmo. “O Stepánitch vem retirar a neve e eu acho que é Cristo que veio me ver. Está ficando ruim da cabeça, velho.” No entanto Avdeitch deu uns dez pontos de costura e se esticou para olhar de novo pela janela. Olhou mais uma vez, viu que Stepánitch tinha encostado a pá na parede e estava se aquecendo ou descansando. Era um homem velho, debilitado, era óbvio que não tinha forças para retirar a neve. Avdeitch pensou: “Eu podia lhe dar um pouco de chá, que bom que o samovar está pronto”. Avdeitch espetou a sovela, levantou-se, colocou o samovar sobre a mesa, serviu o chá e bateu com o dedo no vidro. Stepánitch virou-se e se aproximou da janela. Avdeitch chamou-o com a mão e foi abrir a porta. –Entre, se aqueça – disse. – Tome um chá. –Que Cristo o salve, meus ossos estão quebrados – disse Stepánitch. Ele entrou, sacudiu a neve, pôs-se a limpar os pés para não deixar marcas no chão e andou, claudicante. –Não precisa limpar os pés. Eu limpo depois, é nosso trabalho, venha cá, sente-se – disse Avdeitch. – Beba este chá aqui. E Avdeitch encheu dois copos, serviu um para o hóspede e o outro derramou num pires, para si mesmo, e soprou. Stepánitch bebeu seu copo até o fim, virou-o de boca para baixo, colocou o resto do açúcar sobre o fundo e começou a agradecer. Mas era evidente que queria mais. ?Tome mais – disse Avdeitch e serviu mais um copo para si e para o hóspede. Avdeitch bebeu seu chá, mas não parava de espiar a rua. –Está esperando alguém? – perguntou o hóspede. –Se espero alguém? Tenho até vergonha de dizer quem estou esperando: não é que eu esteja esperando de verdade, mas umas palavras ficaram gravadas no meu coração. Não sei se foi uma visão ou o que foi. Veja só se compreende, meu irmão: ontem eu estava lendo o Evangelho sobre o Paizinho Cristo, como Ele sofreu, como andou pela terra. Você já ouviu falar, não é? –Ouvi falar, sim – respondeu Stepánitch. – Mas sou ignorante, não sei ler. –Pois acontece que estava lendo sobre como Ele andava pela terra, e lia sobre a hora em que foi à casa do fariseu, sabe, e o fariseu não recebeu Cristo direito. Pois então, meu irmão, eu estava lendo essas coisas ontem e pensei: como ele pôde não receber o Paizinho Cristo com as honras devidas? Se fosse à casa de qualquer um ou à minha casa, por exemplo, como não saber de que jeito precisa ser recebido? Mas ele não recebeu direito. Aí fiquei pensando nisso e cochilei. Cochilei, meu irmão, e ouvi uma voz me chamando pelo nome, levantei, alguém sussurrava: espere, disse a voz, vou chegar amanhã. E repetiu. Pois então, acredite, isso entrou na minha cabeça, eu mesmo me censuro, mas continuo esperando o Paizinho. Stepánitch balançou a cabeça e não disse nada, bebeu seu copo até o fim e colocou-o de lado, mas Avdeitch levantou o copo outra vez e encheu-o. ?Beba e recupere a saúde. Também penso que quando Ele, o Paizinho, veio à terra não desdenhou ninguém e ficou mais com as pessoas simples. Sempre andava com gente simples, escolheu os apóstolos entre nossos irmãos trabalhadores, pecadores como nós. Quem se eleva, disse, será rebaixado, mas quem se rebaixa será elevado. Vocês me chamam de Senhor, disse, mas eu lavo seus pés. Quem quer ser o primeiro, disse, será o servo de todos. Porque, disse, abençoados são os pobres, os humildes, os mansos, os misericordiosos. Stepánitch esqueceu o chá, era um homem velho e chorava à toa. Escutava quieto e as lágrimas escorreram pelo rosto. –Vamos, beba mais um pouco – disse Avdeitch. Mas Stepánitch fez o sinal da cruz, agradeceu, afastou o copo e levantou-se. –Obrigado, Martin Avdeitch – disse. – Você me serviu bem, saciou minha alma e meu corpo. –Seja bem-vindo, venha outra vez, vou ficar contente – disse Avdeitch. Stepánitch saiu e Martin serviu o resto do chá, bebeu tudo, tirou a louça e sentou-se de novo junto à janela para trabalhar – costurar a parte de trás de uma bota. Costurava e não parava de olhar pela janela – esperava Cristo, o tempo todo pensando Nele e em Suas ações. E o tempo todo as palavras de Cristo estavam na cabeça de Martin. Passaram dois soldados, um com botas oficiais, outro com botas dele mesmo, depois passou o dono de um prédio vizinho, de galochas muito limpas, passou um padeiro com um cesto. Todos passavam e então uma mulher de meias de lã e tamancos de madeira surgiu bem na frente da janela. Passou e parou no espaço entre duas janelas. Avdeitch olhou para ela por baixo da janela, viu uma mulher desconhecida, malvestida, com um bebê, tinha parado junto à parede, de costas para o vento, tentava agasalhar a criança, mas não tinha com o que agasalhar. A roupa da mulher era de verão e ruim. Por trás da esquadria da janela, Avdeitch ouvia o bebê gritar e a mulher queria acalmar a criança, mas não tinha como fazer isso. Avdeitch levantou-se, saiu pela porta, foi até a escada e gritou: –Sabida! Ei, sabida! A mulher ouviu e virou-se. –Para que fica aí no frio com o bebê? Entre aqui, no calor é mais fácil cuidar dele. Venha para cá. A mulher ficou surpresa. Viu um velho de avental e óculos chamando por ela. Foi atrás dele. Desceram pela escada, entraram no quarto, o velho conduziu a mulher até a cama. –Aqui – disse ?, sente perto da estufa, mulher sabida… Se aqueça e amamente o menino. –Não tenho leite nos peitos, não como nada desde a manh㠖 disse ela, e mesmo assim levou o bebê ao peito. Avdeitch balançou a cabeça, foi até a mesa, pegou pão, chá, abriu a tampa da estufa, pôs sopa de repolho numa tigela, pegou a panela de mingau, mas ainda não estava pronto, pôs a sopa de repolho sobre a mesa. Pegou o pão, tirou um pano do gancho e botou sobre a mesa. –Sente – disse ?, coma, sabida, enquanto eu fico com o menino, pois também tive filhos, sei cuidar de crianças. A mulher fez o sinal da cruz, sentou-se à mesa e começou a comer, e Avdeitch sentou-se na cama com o bebê. Avdeitch ficou estalando os lábios para a criança, mas não estalava os lábios direito porque não tinha dentes. O bebê continuava a gritar. Avdeitch inventou de assustá-lo com o dedo, brandia o dedo para ele, avançava na direção da boca e depois recuava. Não deixava o menino pôr seu dedo na boca, porque estava preto, sujo de piche. E o bebê olhou para o dedo, se calou e depois começou a rir. E Avdeitch também achou graça. A mulher comia, enquanto contava quem era e o que estava fazendo. –Sou esposa de um soldado – disse ?, faz oito meses que levaram meu marido para longe e não tive mais notícias dele. Eu ganhava a vida trabalhando como cozinheira, quando dei à luz. Não quiseram que eu ficasse com a criança. Agora faz três meses que estou nessa luta, sem ter onde ficar. Gastei tudo o que tinha. Queria trabalhar de ama de leite, não aceitaram, sou magra, eles dizem. Aí fui à casa da mulher do comerciante, nossa avó mora lá e por isso me prometeu que ia arranjar um lugar para mim. Achei que era para ir já. Mas ela mandou ir só na semana que vem. E mora longe. Estou que não me aguento mais e meu queridinho também. Ainda bem que nossa senhoria tem pena de nós e, com a graça de Cristo, nos deixa ficar no quarto. Se não fosse isso, nem sei como ia sobreviver. Avdeitch suspirou e disse: –E não tem roupas quentes? –Pois é, irmão, está na época de usar roupas quentes. Ontem penhorei meu último xale por uma moeda de vinte copeques. A mulher chegou perto da cama e pegou o bebê. Avdeitch levantou-se, foi até o armário, remexeu, pegou um casaco velho. –Tome aqui – disse ?, é uma roupa meio ruim, mas pode servir para você se esquentar. A mulher olhou para o casaco, olhou para o velho, pegou o casaco e começou a chorar. Avdeitch desviou o olhar; se agachou ao lado da cama, apanhou uma arca pequena, remexeu dentro dela por um tempo e sentou-se na frente da mulher. E a mulher disse: –Que Cristo abençoe você, vovô, parece que foi Ele que me fez passar na frente da sua janela. Meu filhinho estava morrendo de frio. Na hora em que saí estava quente, mas agora ficou gelado. E foi Ele mesmo, o Paizinho, que fez você olhar pela janela e ter pena de minha amargura. Avdeitch sorriu e disse: –Foi Ele mesmo que me guiou. Eu não estava olhando pela janela à toa, mulher sabida. E Martin contou seu sonho à esposa do soldado, contou que ouviu uma voz que prometeu que o Senhor viria à sua casa naquele dia. –Tudo pode acontecer – disse a mulher. Levantou-se, vestiu o casaco, envolveu nele o filhinho e então se curvou e agradeceu mais uma vez a Avdeitch. –Tome aqui, em nome de Cristo – disse Avdeitch, e lhe deu uma moeda de vinte copeques. – Resgate o xale do penhor. A mulher fez o sinal da cruz, Avdeitch fez o sinal da cruz e levou a mulher até a porta. Ela saiu; Avdeitch tomou a sopa de repolho, arrumou a louça e sentouse de novo para trabalhar. Ficou trabalhando, mas pensava na janela, e toda vez que a janela escurecia, ele logo espiava para ver quem estava passando. Passavam conhecidos, passavam desconhecidos e não havia ninguém especial. E então Avdeitch viu uma velha mascate parada bem na frente de sua janela. Levava um cesto com maçãs. Restavam poucas, parecia ter vendido tudo, mas trazia pendurado no ombro um saco de lascas de madeira. Na certa tinha pegado em alguma obra e ia levar para casa. Mas o saco parecia pesar muito em seu ombro; quis passar o saco para o outro ombro, baixou o saco na calçada, colocou o cesto de maçãs sobre uma pequena coluna e começou a esvaziar um pouco o saco. Enquanto diminuía o peso do saco, do nada apareceu um menino de chapéu rasgado, apanhou uma maçã do cesto e quis fugir depressa, mas a velha percebeu, se virou e segurou o menino pela manga. O menino se debateu, quis soltar-se, mas a velha o segurava com as duas mãos, arrancou seu capuz e agarrou seu cabelo. O menino gritava, a velha xingava. Avdeitch não teve tempo para espetar a sovela. Largou-a no chão mesmo, se precipitou para a porta, até tropeçou na escada, e seus óculos caíram. Avdeitch correu às pressas para a rua: a velha segurava o menino pelo cabelo e xingava, dizia que ia levar o menino para a polícia; o menino se debatia e negava tudo: –Não peguei nada – dizia. – Por que está me batendo? Me solte. Avdeitch tratou de separá-los, segurou o menino pelo braço e disse: –Solte o menino, vovó, perdoe, em nome de Cristo! ?Pois vou perdoar, sim, mas de um jeito que ele não vai esquecer, até as bétulas brotarem de novo. Vou levar esse bandido para a polícia. Avdeitch implorou para a velha: –Solte, vovó, ele não vai mais fazer isso. Solte, pelo amor de Cristo! A velha soltou, o menino quis correr, mas Avdeitch o conteve. –Peça desculpa para a vovó. E não faça mais isso, eu vi que você pegou. O menino começou a chorar, pediu desculpa. –Pronto, aí está. Agora tome esta maçã para você. E Avdeitch pegou no cesto e deu para o menino. –Vou pagar, vovó – disse para a velha. –Assim você estraga esses malandros – disse a velha. – Tem de recompensar esse moleque de um jeito que ficasse uma semana sem poder sentar. –Eh, vovó, vovó – disse Avdeitch. – Para nós é assim, mas para Deus, não é. Se é preciso bater no menino com o chicote, o que será preciso fazer conosco por nossos pecados? A velha ficou calada. E Avdeitch contou para a velha a parábola do patrão que perdoou todas as dívidas grandes de um servo camponês e o servo saiu dali e foi estrangular um devedor seu. A velha ouviu e o menino também ficou ouvindo. –Deus mandou perdoar – disse Avdeitch. – Senão, nós também não seremos perdoados. Temos de perdoar todos, e mais ainda os que não têm noção do que fazem. A velha balançou a cabeça e suspirou. –É isso mesmo – disse ela. – Mas eles já estão muito estragados. –Por isso nós, os velhos, temos de ensinar a eles – disse Avdeitch. –É o que eu digo também – respondeu a velha. – Eu mesma tive sete, só sobrou uma filha. E a velha começou a contar onde e como ela e a filha viviam e quantos netos tinha. –Veja, minhas forças se foram – disse ela ?, mas trabalho sempre. Tenho pena dos netos, das crianças, e que netinhos bons eu tenho; ninguém me recebe como eles. A Aksiutka não me larga, não quer saber de mais ninguém. Vozinha, querida vozinha, meu coração… – E a velha amoleceu toda de ternura. ? É claro que foi coisa de criança. Deus o proteja – disse a velha para o garoto. E quando ela quis levantar o saco do chão e pôr no ombro, o menino deu um pulo para a frente e disse: –Deixe que eu carrego, vovó, é meu caminho. A velha balançou a cabeça e entregou o saco ao menino. E foram os dois lado a lado pela rua. A velha até se esqueceu de pedir a Avdeitch o dinheiro para pagar a maçã. Avdeitch ficou olhando para eles e ouviu como conversavam sem parar, enquanto caminhavam. Avdeitch observou os dois e voltou para casa, encontrou seus óculos na escada e não tinham quebrado, pegou no chão a sovela e sentou-se de novo para trabalhar. Trabalhou um pouco e começou a não conseguir enfiar a linha no lugar certo. “Parece que está na hora de acender a lamparina”, pensou, abasteceu a lamparina, pendurou e voltou a trabalhar. Terminou uma bota; virou, examinou: estava boa. Juntou as ferramentas, varreu os retalhos, guardou as linhas, o alicate e as sovelas, pegou a lamparina, colocou sobre a mesa e tirou o Evangelho da estante. Queria abrir o livro no lugar que marcara na véspera com uma tira de couro de cabra, mas abriu em outro lugar. E quando Avdeitch abriu o Evangelho, lembrou-se do sonho da véspera. E assim que lembrou, teve a impressão de que alguém se movia e dava um passo a seu lado. Virou-se e viu: num canto escuro, parecia haver pessoas paradas – pessoas, mas ele não conseguia distinguir quem era. E uma voz sussurrou em seu ouvido: –Martin! Ah, Martin. Será que você não me reconheceu? –Quem é? – perguntou Avdeitch. –Sou Eu – respondeu a voz. – Veja, sou Eu. E do canto escuro saiu Stepánitch, sorriu, se dissipou como uma nuvem e sumiu… –E esse também sou Eu – disse a voz. E do canto escuro saíram a mulher e o bebê, ela sorriu, o bebê também sorriu, e também se foram. –E esse também sou Eu – disse a voz. E vieram a velha e o menino com a maçã e os dois sorriram e também se foram. E Avdeitch ficou alegre, fez o sinal da cruz, pôs os óculos e leu o Evangelho, no lugar onde havia aberto o livro. E no alto da página leu: “Eu tive fome e tu me deste o que comer, eu tive sede, e tu me deste o que beber, eu era um forasteiro, e tu me deste abrigo…” E embaixo da página, leu também: “Cada vez que fizeste isso a um de meus irmãos mais pequeninos, o fizeste também a mim” (Mateus, XXV). E Avdeitch entendeu que o sonho não o havia enganado, que tinha sido exatamente o Salvador que o visitara naquele dia e que ele o havia acolhido. OS TRÊS EREMITAS (1886) Nas vossas orações não useis de vãs repetições, como os gentios, porque imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos. Não sejais como eles, porque o vosso Pai sabe do que tendes necessidade antes de pedirdes. Mateus, VI, 7-8 Um bispo estava viajando de navio da cidade de Arcangel para o monastério de Solóvki. No mesmo navio, viajavam peregrinos para visitar os lugares santos. O vento soprava a favor, o tempo estava claro, o navio não balançava. Os peregrinos – uns deitados, outros comendo, outros sentados em rodinhas – conversavam entre si. O bispo também saiu para o convés e começou a andar para um lado e para outro pela ponte. O bispo se aproximou da proa, viu uma rodinha de gente. Um homenzinho apontava para alguma coisa no mar e falava, enquanto as pessoas escutavam. O bispo parou, observou, olhando na direção para a qual o homenzinho apontava: não viu nada, só o mar e o sol radiante. O bispo chegou mais perto, escutou com atenção. O homenzinho viu o bispo, tirou o chapéu e calou-se. As pessoas também viram o bispo, também tiraram o chapéu, fizeram uma reverência. Não fiquem constrangidos, irmãos – disse o bispo. – Também vim escutar o que você está contando, bom homem. –Pois é, o pescadorzinho está falando dos eremitas – explicou um mercador mais corajoso. –Mas que eremitas? – perguntou o bispo, aproximou-se da borda e sentou num caixote. – Conte para mim também, quero ouvir. O que estava apontando? –Aquela ilhazinha lá longe – respondeu o homem e apontou para a frente e à direita. – Naquela ilhazinha lá os eremitas vivem e se salvaram. –Onde está a ilha? – perguntou o bispo. –Olhe só, aqui, bem na direção da minha mão. Aquela nuvenzinha lá. Embaixo dela, à esquerda, uma faixa, dá para ver. O bispo olhou, olhou, a água se agitava sob o sol, mas ele não via nada de extraordinário. –Não estou vendo – disse. – Mas afinal quem eram esses eremitas que vivem na ilha? –Gente de Deus – respondeu o homem. – Já ouvia falar deles faz muito tempo, mas nunca tinha visto, e aí no verão passado eu vi. E o pescador recomeçou a contar que estava pescando e o mar arrastou seu barco até aquela ilha, e ele não sabia onde estava. De manhã, foi andar e topou com um abrigo feito de terra, viu ao lado um eremita e depois mais dois eremitas saíram do abrigo; deram-lhe comida, secaram sua roupa e o ajudaram a consertar o barco. –E como é que eles são? – perguntou o bispo. –Um é miúdo, curvado, muito velho, veste uma batina velhinha, deve ter mais de cem anos, o grisalho da barba já começou a ficar verde, mas ele está sempre sorrindo, alegre, como um anjo do céu. O outro é um pouco mais alto, também velho, veste um caftã esfarrapado, tem barba larga, grisalha e amarelada, mas é um homem forte: virou meu barco como se fosse uma barrica, nem tive tempo de ajudar, e ele também é alegre. O terceiro é alto, barba comprida até o joelho e branca feito a lua, é carrancudo, as sobrancelhas enrugadas em cima dos olhos, e anda todo nu, só com uma esteirazinha na cintura. –E o que eles falaram com você? – perguntou o bispo. –Na maior parte do tempo, faziam as coisas calados, e pouco falavam uns com os outros. Um olhava e o outro logo entendia. Perguntei ao mais alto se fazia muito tempo que moravam ali. Ele fez uma carranca, falou alguma coisa, pareceu zangado, mas o miúdo e velho logo segurou a mão dele, sorriu, e o grande se calou. O velho só disse: “Tenha piedade de nós”, e sorriu. Enquanto o homem contava, o navio chegava mais perto da ilha. –Olhe, agora dá para ver bem – disse o mercador. – Olhe lá, Vossa Reverendíssima – disse e apontou. O bispo olhou. E avistou nitidamente uma faixa preta – uma ilhota. O bispo observou, observou, se afastou da proa, foi na direção da popa, aproximou-se do timoneiro. –Que ilhota é aquela – perguntou –, a que se vê ali? –Não tem nome. Há muitas ilhas como essa. –É verdade que alguns eremitas procuraram a salvação lá? –É o que dizem, Vossa Reverendíssima, mas não sei se é verdade. Os pescadores já viram. Mas também acontece de falarem à toa. –Quero ir àquela ilha e ver os eremitas – disse o bispo. – Como se pode fazer isso? –De navio, é impossível – respondeu o timoneiro. – De bote dá para ir, mas é preciso pedir ao comandante. Chamaram o comandante. –Eu gostaria de conhecer aqueles eremitas – disse o bispo. – Não é possível me levar lá? O comandante quis dissuadi-lo. –Possível é, mas vamos perder muito tempo e me atrevo a dizer a Vossa Reverendíssima que não vale a pena conhecer os eremitas. Ouvi dizer que são uns velhinhos muito bobos que moram lá, não se lembram de nada e não conseguem falar, como os peixes do mar. –Quero ir – disse o bispo. – Vou pagar pelo trabalho, me leve até lá. Não havia nada a fazer, o comandante deu as ordens, levantaram as velas. O timoneiro fez a curva com o navio, rumaram para a ilha. Puseram uma cadeira na proa para o bispo. Ele sentou ali e observou. E todo o povo se juntou na proa, todos olhavam para a ilhota. E quem tinha olhos mais aguçados já avistava as pedras na ilha e apontava para o abrigo de terra. Um deles chegou a enxergar os três eremitas. O comandante pegou o telescópio, olhou por ele e depois o entregou ao bispo. –É verdade, olhe na beira da praia, à direita de uma pedra grande, três homens estão parados ali. O bispo olhou pelo telescópio, apontou na direção certa; lá estavam os três: um alto, outro um pouco mais baixo e o terceiro bem miúdo; estavam na praia, de mãos dadas. O comandante virou-se para o bispo. –O navio precisa parar aqui, Vossa Reverendíssima. Se for do seu agrado, podemos levá-lo de bote até lá, enquanto ficamos ancorados. Logo soltaram o cabo, jogaram a âncora, desamarraram as velas – a embarcação sacudiu, deu um tranco. Baixaram um bote, os remadores pularam e o bispo começou a descer pela escadinha. O bispo desceu, sentou num banquinho no bote, os remadores bateram os remos na água, rumaram para a ilha. Chegaram a uma altura de onde se podia alcançar a praia com uma pedrada; viram os três eremitas parados: o alto – nu, uma esteira na cintura –, o mais baixo – de caftã esfarrapado – e o mais velho e curvado – numa batina surrada; os três estavam de mãos dadas. Os remadores atracaram na praia, prenderam o bote com um gancho. O bispo desceu. Os eremitas o cumprimentaram com uma reverência, o bispo os abençoou e eles se curvaram ainda mais. O bispo começou a lhes falar: –Ouvi dizer que aqui, eremitas de Deus, vocês estão salvando sua alma, rezam a Cristo pelas pessoas e eu, servo indigno de Cristo, pela graça de Deus, fui chamado para apascentar Seu rebanho; por isso quis também conhecer vocês, servos de Deus, e lhes dar o ensinamento que eu puder. Os eremitas ficaram calados, sorriram, olharam uns para os outros. –Digam-me como estão salvando sua alma e como servem a Deus – disse o bispo. O eremita de estatura mediana suspirou e olhou para o mais velho, o ancião; o eremita mais alto franziu as sobrancelhas e olhou para o mais velho, o ancião. E o mais velho, o ancião, sorriu e disse: –Nós, servo de Deus, não sabemos servir a Deus, só servimos a nós mesmos, nos alimentamos. –Como rezam a Deus? – perguntou o bispo. E o eremita ancião disse: –Rezamos assim: Nós somos três, Vós sois três, tende piedade de nós! E assim que o eremita ancião disse essas palavras, os três eremitas ergueram os olhos para o céu e os três disseram: –Nós somos três, Vós sois três, tende piedade de nós! O bispo riu e disse: –Vocês ouviram falar da Santíssima Trindade, mas não rezam direito. Eu me afeiçoei a vocês, eremitas de Deus, e vejo que querem agradar a Deus, mas não sabem como servi-Lo. Não é assim que se deve rezar, mas me escutem que vou ensinar. Não vou ensinar uma reza que eu mesmo inventei, mas a que está nas Escrituras divinas, como Deus mandou que todos rezassem para Ele. E o bispo começou a explicar aos eremitas como Deus se revelou às pessoas: contou sobre o Deus Pai, o Deus Filho e o Espírito Santo de Deus, e disse: –O Deus Filho desceu à terra para salvar as pessoas e ensinou todos a rezar. Escutem e repitam depois de mim. E o bispo começou a dizer: –Pai Nosso. E um eremita repetiu “Pai Nosso”, e o outro repetiu “Pai Nosso”, e o terceiro também repetiu “Pai Nosso”. –Que estais no céu. Os eremitas repetiram: –Que estais no céu. O eremita de estatura mediana não conseguiu pronunciar direito; o eremita alto e nu também não falou tudo: seu bigode tinha crescido por cima da boca, ele não conseguia falar com clareza; o eremita ancião, desdentado, mastigou as palavras de um jeito confuso. O bispo repetiu de novo, os eremitas repetiram de novo. O bispo sentouse numa pedra e os eremitas ficaram em pé em volta dele, olhavam para sua boca, repetiam o que ele dizia. E o dia inteiro, até anoitecer, o bispo se esforçou para ensinar aos eremitas; repetiu dez, vinte, cem vezes as mesmas palavras, e os eremitas repetiam com ele. Erravam, o bispo corrigia e os obrigava a repetir do início. E o bispo só largou os eremitas depois que aprenderam toda a oração do senhor, quando conseguiram repetir depois dele e quando conseguiram falar sozinhos a prece inteira. O primeiro a aprender foi o eremita de estatura mediana, que a repetiu sozinho do início ao fim. O bispo mandou-o dizer a prece mais uma vez, e outra, e ainda de novo, e depois os outros também aprenderam a prece inteira. Já estava escurecendo, a luz começava a subir do mar, quando o bispo se levantou para ir para o bote. Despediu-se dos eremitas, eles se curvaram numa reverência até o chão. O bispo os levantou, beijou o rosto de todos, mandou que rezassem como ele havia ensinado, sentou-se no bote e partiu na direção do navio. O bispo seguiu para o navio e ouvia o tempo todo como os eremitas repetiam alto, a três vozes, a oração do Senhor. O bote começou a se afastar, já não se ouvia a voz dos eremitas, mas à luz do luar ainda se podia ver: estavam parados na praia, no mesmo lugar, os três eremitas – o menor de todos no meio, o mais alto à direita, o de estatura mediana à esquerda. O bispo chegou ao navio, subiu no convés, levantaram a âncora, ergueram as velas, o vento as inflou, o navio se pôs em movimento e eles foram embora. O bispo foi à proa, sentou-se e ficou o tempo todo olhando para a ilhota. No início, dava para ver os eremitas, depois sumiram, só se via a ilhota, depois a ilhota também desapareceu, só o mar ondulava sob a luz da lua. Os peregrinos foram dormir e tudo ficou em silêncio no convés. Mas o bispo não teve vontade de dormir, continuou sentado sozinho na proa, olhava para o mar na direção onde a ilhota havia desaparecido e pensava nos bondosos eremitas. Pensava em como tinham ficado contentes por aprender a prece e agradeceu a Deus por tê-lo enviado para ajudar os eremitas de Deus e ensinar-lhes as palavras divinas. O bispo ficou assim, pensando, olhando para o mar, na direção em que a ilhota havia desaparecido. E seus olhos se turvavam e, ora aqui, ora ali, a luz rebrilhava nas ondas. De repente ele viu algo brilhar, branco, na faixa da luz do luar: uma ave, uma gaivota, ou a vela branca de um barquinho. O bispo olhou com atenção. “É um bote a vela que vem atrás de nós”, pensou. “Mas vem depressa demais, daqui a pouco vai nos ultrapassar. Estava lá longe e agora dá para ver bem perto. Mas não pode ser um bote, não parece uma vela. Mas algo vem correndo atrás de nós e vai nos alcançar.” E o bispo não conseguia distinguir o que era: nem bote, nem ave, nem peixe. Parecia um homem, mas muito grande, e um homem não podia estar assim, no meio do mar. O bispo se levantou, aproximou-se do timoneiro. –Olhe – disse. – O que é aquilo? O que é aquilo, irmão? O que é aquilo? – perguntou o bispo, e então ele mesmo viu: os eremitas corriam sobre o mar, brancas, suas barbas grisalhas reluziam e se aproximavam do navio, como se estivesse parado. O timoneiro olhou, se assustou, largou o leme e começou a gritar: –Meu Deus! Os eremitas estão vindo atrás de nós pelo mar, correm como se estivessem na terra! O povo ouviu, levantou, correram todos para a proa. Todos viram: os eremitas vinham correndo, de mãos dadas, os dois das pontas acenavam com a mão, mandavam parar o navio. Os três sobre a água, como se estivessem na terra, corriam sem mexer as pernas. Antes que tivessem tempo de parar a embarcação, os eremitas alcançaram o navio, aproximaram-se da borda, ergueram a cabeça e disseram a uma só voz: –Esquecemos, servo de Deus, esquecemos sua lição! Enquanto repetíamos, lembramos, mas na hora em que paramos de repetir, uma palavra escapou, esquecemos e tudo se desmanchou. Não lembramos nada, ensine de novo. O bispo se benzeu, curvou-se para os eremitas e disse: –A prece de vocês já alcançou Deus, eremitas de Deus. Não tenho nada para lhes ensinar. Rezem por nós, pecadores! E o bispo se curvou numa reverência até o chão diante dos eremitas. E os eremitas pararam, deram meia-volta e retornaram para o mar. E até de manhã, se viu um resplendor no lado para onde foram os eremitas. TRABALHO, MORTE E ENFERMIDADE (1903) UMA LENDA Esta é uma lenda contada por índios da América do Sul. Deus , dizem eles, criou os homens de uma maneira que não teriam de trabalhar. Não havia necessidade de roupas, nem casa, nem comida e todos viviam até aos cem anos de idade sem saber o que é uma doença. Depois de algum tempo Deus olhou como viviam os homens e percebeu que em vez de desfrutar a vida, passavam o tempo a brigar uns com os outros, e cada um cuidava de si mesmo, levando as coisas a tal estado que. ao invés de estar felizes a vida, eles a amaldiçoavam. Então disse Deus : "Isso é porque eles vivem cada um para si." E para mudar este estado de coisas, Deus fez com que se tornasse impossível para as pessoas viver sem trabalho. Para evitar que sofressem com frio e fome, elas foram obrigadas a construir habitações, cavar a terra, cultivar e colher as frutas e os grãos. 'O trabalho vai uni-los', pensou Deus."É impossível para um único deles cortar e transportar as vigas e construir as casas, produzir suas ferramentas, fazer a colheita, tecer e fazer suas roupas, cada um sozinho por si mesmo. Facilmente entenderão que quanto mais trabalharem juntos, mais terão e melhor viverão; a vida será mais fácil e isso os vai unir." Depois de algum tempo voltou Deus a olhar como viviam os homens. Mas os homens viviam ainda pior do que antes. Trabalhavam em comum - porque não teriam como fazê-lo de outra maneira, mas não todos juntos, e sim separados em pequenos grupos, e cada grupo tentando prejudicar o trabalho dos outros ou impedi-lo, desperdiçando tempo e energia em seu labor, de maneira que as coisas iam mal para todos. Tendo visto que isso não era bom, Deus decidiu, assim como para organizar as coisas, que o homem não deveria saber a hora de sua morte, e poderia morrer a qualquer momento ; e anunciou isso para eles. "Sabendo que cada um deles poderá morrer a qualquer momento", pensou Deus, "não iriam se apegar a ganhos que podem durar pouco tempo, estragando as horas de vida concedidas a eles." Mas as coisas aconteceram de outra forma. Quando Deus voltou para ver como as pessoas estavam vivendo, viu que a vida delas estava tão ruim como sempre. Aqueles que eram mais fortes, valendo-se do fato de que os homens podem morrer a qualquer tempo, subjugavam aqueles que eram mais fracos, matando alguns e ameaçando outros com a morte. E ele viu que o mais forte e seus descendentes não faziam nenhum trabalho, e sofriam o cansaço da ociosidade, enquanto aqueles que eram mais fracos se sujeitavam a trabalho que ia além suas forças, e nunca descansavam. Cada grupo de homens temia e odiava o outro. E a vida do homem tornou-se ainda mais infeliz. Tendo visto tudo isto Deus, para consertar as coisas, resolveu usar um último recurso; Ele enviou todo tipo de doença para os homens. Deus pensou que, quando todos eles fossem expostos às enfermidades, iriam entender que aqueles que estão bem devem ter piedade daqueles que estão doentes, e devem ajudá- los, porque quando eles próprios caíssem doentes, seriam acudidos. E novamente Deus se afastou, mas quando Ele retornou para ver como os homens viviam, agora sujeitos a doenças, viu que a vida deles era pior ainda do que antes porque aquelas doenças que, na mente de Deus , deveriam ter unido os homens, os dividiam ainda mais do que nunca. Aqueles homens que eram fortes o bastante para fazer os outros trabalharem também os obrigavam a esperar por eles quando ficaram doentes; mas não fizeram o mesmo, quando chegou a sua vez de zelar pelos outros quando eram estes que estavam doentes. E aqueles que foram forçados a trabalhar para os outros e a zelar pelos que estavam doentes, estavam tão desgastados pelo trabalho que não tinham mais como olhar para os outros que estavam doentes, deixando-os sem atendimento. Uma vez que a visão de gente pobre não podia perturbar os prazeres do rico, casas foram arranjadas para que essas pessoas pobres sofressem e morressem, longe daqueles cujo cuidado os animaria e nos braços de pessoas contratadas para tratar delas sem compaixão, ou até mesmo com nojo. Além disso, as pessoas consideravam muitos das doenças contagiosas, e, temendo contraí-las, não só evitavam o doente, como também se distanciavam daqueles que cuidavam dele. Então Deus disse para si mesmo: ' Se até desta maneira os homens não entenderem o que devem fazer para ser felizes, deixemos que sejam ensinados pelo sofrimento.' E Deus deixou que os homens vivessem por conta própria. E, abandonados à própria sorte, os homens viveram muito tempo até entender o que deveriam fazer para serem felizes. Apenas mais recentemente alguns poucos começaram a entender que o trabalho não tem de ser um pesadelo para alguns e algo forçado para outros, mas deveria ser algo comum e agradável para todos os homens. Eles têm começado a entender que, em vista da morte que a cada momento ameaça todos, a única ação razoável para todo homem é passar os anos, meses, horas, e minutos concedidos a cada um - em unidade e amor. Eles têm começado a entender que a doença, longe de dividir os homens, deve, ao contrário, dar oportunidade para amar união com um outro. Eles têm começado a entender que, com a morte constantemente ameaçando cada um de nós, a única razoável de negócios de cada homem é passar os anos, meses, horas, e minutos, atribuído a ele - em unidade e amor. Eles têm começado a entender que a doença, ao invés de ser uma causa de divisão entre os homens, deve ser um motivo para que haja união e amor entre eles.  DOIS VELHOS (1885) Disse-lhe a mulher: “Senhor, vejo que sois um profeta… Nossos pais adoraram sobre esta montanha, mas vós dizeis: é em Jerusalém que está o lugar onde é preciso adorar”. Jesus lhe disse: “Crede, mulher, vem a hora em que nem sobre esta montanha nem em Jerusalém adorareis o Pai. “Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. “Mas vem a hora – e é agora – em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade, pois tais são os adoradores que o Pai procura.” João, IV, 19-23 I Dois velhos tinham feito promessa de ir rezar na velha Jerusalém. Um deles era um mujique rico, chamado Efim Tarassitch Chevelev. O outro não era rico e se chamava Elissei Bodrov. Efim era um mujique sério, não bebia vodca, não fumava nem cheirava tabaco, nunca xingava ninguém nem praguejava, era um homem austero e rigoroso. Havia sido eleito estaroste por duas vezes e deixou o cargo sem dívidas. Tinha uma família numerosa: dois filhos e um neto já casado, e todos moravam juntos. Era um mujique saudável, barbudo e correto e, aos sessenta e dois anos, sua barba só agora começava a ficar grisalha. Elissei era um velhinho nem rico nem pobre, antigamente trabalhava de carpinteiro, mas com a velhice passou a ficar em casa e cuidar das abelhas. Um filho trabalhava fora, o outro, em casa. Elissei era um homem bondoso e alegre. Bebia vodca, cheirava tabaco e gostava de cantar, mas era um homem cordato, vivia amistosamente com os de casa e com os vizinhos. Elissei era um mujique baixo, de pele bem morena, barba crespa e, como o profeta Eliseu, seu xará, tinha a cabeça toda careca. Muito tempo antes, os velhos tinham feito um acordo e prometido partir juntos, mas Tarassitch nunca tinha tempo: seus negócios não deixavam. Assim que acabava um, outro começava: uma hora foi o neto que casou, depois teve de esperar o filho caçula que voltou do Exército, depois começou a construção de uma isbá. Num feriado, os velhos se encontraram e sentaram-se sobre umas toras de madeira. –E então – disse Elissei ?, vamos partir e cumprir nossa promessa? Efim franziu o rosto. –Vou ter de esperar um pouco – respondeu. – Esse ano foi difícil para mim. Comecei a construir essa isbá, achei que ia gastar uns cem rublos, mais ou menos, mas já está me custando trezentos. E ainda falta muito para ficar pronta. Pelo visto, vamos ter de esperar até o verão. No verão, se Deus quiser, iremos sem falta. –Na minha opinião – disse Elissei ?, não há por que adiar, temos de ir agora. A melhor época é a primavera. –É a melhor época, mas o trabalho já foi começado. Como vou largar no meio? –Será que você não tem ninguém? Seu filho toca o trabalho. –Pois sim! Não tenho confiança no mais velho, costuma se embriagar. –Vamos morrer, compadre, e eles vão ter de viver sem nós. O filho também precisa aprender. –Isso é verdade, mas a gente gosta de ver um trabalho terminado. –Ah, bom homem! A gente nunca consegue terminar tudo. Olhe só, lá em casa as mulheres estavam lavando e arrumando tudo para o feriado. Ora tinha uma coisa, ora tinha outra, e não conseguiam terminar nada. A nora mais velha, mulher sensata, disse: “A gente tem de agradecer ao feriado por ele chegar sem esperar que a gente termine”, disse ela, “senão, por mais que a gente fizesse, nunca ia ficar tudo pronto”. Tarassitch refletiu. –Pus muito dinheiro nessa obra – disse. – Não dá para fazer uma viagem de mãos vazias. Não vamos gastar pouco: uns cem rublos. Elissei riu. –Não diga um pecado desses, compadre – respondeu Elissei. – Você tem uma renda dez vezes maior do que a minha e fica reclamando por causa de dinheiro? É só dizer quando vamos partir. Posso não ter agora, mas vou ter. Tarassitch também deu uma risadinha. –Olhe só como você está rico! – disse. – De onde vai tirar o dinheiro? –Vou raspar tudo lá em casa, pegar o que puder; e se faltar algum, vendo umas dez colmeias para o vizinho. Faz tempo que ele está me pedindo. –Se as colmeias derem novos enxames, você vai se arrepender. –Arrepender? Não, compadre! Na vida não há nada para se arrepender, a não ser os pecados. Não existe nada mais precioso do que a alma. –Pois é, mas ainda assim não está certo ser relaxado com as coisas de casa. –Mas se a gente for relaxado com as coisas da alma, vai ser pior ainda. Nós fizemos uma promessa, agora vamos lá! Sério, vamos. II E Elissei convenceu seu camarada. Efim pensou, pensou, e de manhã foi à casa de Elissei. –Pois é, então vamos – disse. – Você disse a verdade. A vida e a morte estão nas mãos de Deus. Temos de ir enquanto estamos vivos e com força. Uma semana depois, os velhos estavam prontos. Tarassitch tinha dinheiro em casa. Pegou cem rublos para a viagem, deixou duzentos rublos com sua velha. Elissei também estava pronto; vendeu para o vizinho dez colmeias, com todos os enxames que pudessem se formar. Com isso, juntou setenta rublos. Os trinta rublos que faltavam, ele raspou de todo mundo em sua casa. Sua velha lhe deu as últimas economias, que guardava para o enterro; a nora também deu. Efim Tarassitch deixou com o filho mais velho ordens minuciosas sobre tudo: onde e quanto tinha de ceifar, para onde levar o estrume, como terminar a isbá e pôr o telhado. Pensou em tudo e deixou ordens sobre tudo. Já Elissei só disse para sua velha separar as abelhas novas das colmeias vendidas e entregar todas para o vizinho, sem fazer tapeação, e quanto às coisas de casa, não falou nada: –O trabalho vai ensinar a você o que e como se deve fazer. Você é a senhora da casa, faça como for melhor para você. Os velhos estavam prontos. Assaram panquecas caseiras, costuraram sacos, cortaram perneiras novas, calçaram botas novas, pegaram alpercatas de palha de reserva e partiram. Os familiares acompanharam os velhos até a cerca no limite da aldeia, despediram-se e os dois seguiram caminho. Elissei partiu com a alma alegre e, assim que se afastou da aldeia, esqueceu todos os seus afazeres de casa. Só pensava em como agradar a seu camarada de viagem, não falar nenhuma palavra rude para ninguém e como chegar a seu destino e voltar para casa em paz e em amor. Elissei seguia pela estrada e o tempo todo murmurava preces para si mesmo ou recordava as vidas dos santos que conhecia e tinha guardadas na memória. Quando encontrava alguém no caminho ou chegava a algum local para pernoitar, fazia de tudo para ser amável com todo mundo e dizer palavras devotas. Andava e se alegrava. Só uma coisa Elissei não conseguia fazer. Quis parar de cheirar tabaco e deixou em casa a tabaqueira, mas se sentia incomodado. Um homem no caminho lhe deu uma. Ele tentou resistir, se afastou do camarada para não atraí-lo para o pecado, e cheirou. Efim Tarassitch também andava bem, firme, não fazia nada de mau e não falava coisas frívolas, mas não tinha a alma leve. As preocupações de casa não saíam de sua cabeça. Pensava em tudo o que acontecia em sua casa. Não esquecia o que tinha ordenado ao filho e não sabia se o filho ia fazer direito. Na estrada, via que plantavam batata ou amontoavam estrume e pensava: “Será que meu filho está fazendo como ordenei?”. Parecia disposto a voltar e mostrar como se fazia ou até fazer tudo ele mesmo. III Os velhos andaram cinco semanas, gastaram as alpercatas de palha caseiras, já haviam comprado novas e chegaram à terra dos khokhláti.1 Desde que saíram de casa, pagaram para comer e para pernoitar, mas quando chegaram à terra dos khokhláti, aquela gente até discutiu para saber quem ia abrigá-los em sua casa. Deram abrigo e comida e não quiseram receber dinheiro, e ainda lhes deram sacos para a viagem com pão e panquecas que tinham assado. Assim, os velhos percorreram setecentas verstas sem gastar nada. Passaram por outra província e chegaram a um lugar com escassez de alimento. Os habitantes deixaram que os velhos pernoitassem e também não quiseram receber dinheiro, mas pararam de dar comida. Não deram nem um pedaço de pão, em lugar nenhum, e nem com dinheiro os velhos conseguiam. No ano anterior, contaram as pessoas, a terra não tinha dado nada. Os que eram ricos se arruinaram, venderam tudo; os que eram remediados viviam na pobreza completa; e os pobres foram embora ou andavam pedindo esmola, ou então morriam de fome em casa. No inverno, comiam restos de cascas de cereais e ervas daninhas. Os velhos, certa vez, pernoitaram num lugarejo, compraram quinze libras de pão, dormiram e saíram antes da alvorada a fim de viajar uma longa distância antes de aumentar o calor. Percorreram dez verstas e chegaram a um riacho, sentaram, pegaram água na caneca, molharam o pão, comeram e trocaram de calçado. Ficaram sentados, descansando. Elissei pegou a tabaqueira. Efim Tarassitch balançou a cabeça para ele. –Como é que você não larga essa porcaria? Elissei abanou a mão. –Fiz esforço – respondeu ?, é o meu pecado. O que posso fazer? Levantaram, foram em frente. Percorreram mais dez verstas. Chegaram a uma aldeia grande, atravessaram a aldeia toda. Já fazia calor. Elissei estava muito cansado, queria descansar, beber alguma coisa, mas Tarassitch não parava. Tarassitch era mais forte na caminhada e Elissei tinha dificuldade para acompanhá-lo. –Queria beber um pouquinho – disse. –Que beber, nada. Eu não quero. Elissei parou. –Você não precisa esperar – disse. ? Vou só dar um pulinho naquela choupana para beber. Alcanço você num instante. –Está certo – respondeu Efim Tarassitch, e continuou sozinho pela estrada, enquanto Elissei foi para a choupana. Elissei se aproximou da choupana. Era pequena, rebocada com barro; preta embaixo, branca em cima, o barro já estava descascando, pelo visto fazia muito tempo que o barro não era retocado e, de um lado, o telhado estava aberto. A porta da choupana dava para o pátio. Elissei entrou no pátio; viu que um homem sem barba e magro estava deitado num banco feito de terra, com a camisa enfiada na calça, à maneira dos khokhláti. Estava claro que o homem havia deitado na sombra, mas agora o sol batia direto nele. Estava deitado, mas não dormia. Elissei gritou para ele, pediu algo para beber – o homem não respondeu. “Ou está doente ou é malcriado”, pensou Elissei, e se aproximou da porta. Ouviu crianças chorando dentro da choupana. Bateu na porta. –Ó de casa! Não se mexeram. –Servos de Deus! Não atenderam. Elissei quis ir embora, mas ouviu: por trás da porta, alguém parecia gemer. “Será que aconteceu alguma desgraça com essa gente? Tenho de ver!” E Elissei entrou na choupana. IV Elissei girou a maçaneta – não estava trancada. Empurrou a porta, atravessou o vestíbulo. A porta que dava para dentro da choupana estava aberta. À esquerda ficava a estufa; em frente, o cômodo principal; ali havia um oratório, uma mesa; atrás da mesa, um banco; no banco, só de camisa, uma velha sem xale na cabeça estava sentada, a cabeça apoiada na mesa, e a seu lado um menino magro, parecia todo de cera, barriga grande, segurava a velha pela manga e chorava, pedia alguma coisa. Elissei avançou mais para dentro da choupana. O ar cheirava mal. Olhou – junto à estufa, na cama, havia uma mulher deitada. De bruços, não olhava, só respirava ofegante, ora esticava, ora encolhia as pernas. E se sacudia para um lado e para o outro, era dela que vinha o cheiro ruim – estava claro que ela havia se sujado e que não tinha ninguém para limpar. A velha levantou a cabeça, viu o homem. ?O que você quer? – disse. – O que quer? A gente não tem nada. Elissei entendeu o que ela dizia, aproximou-se. –Eu, serva de Deus – respondeu ?, vim matar a sede. –Nada, estou dizendo, não tem nada. A gente não tem nada para pegar. Vá embora. Elissei então se virou e perguntou: –Será que não tem ninguém aqui que não esteja doente para limpar essa mulher? –Não tem ninguém; meu marido está morrendo lá fora e a gente, aqui dentro. O menino tinha se calado ao ver um estranho, mas quando a velha começou a falar, ele voltou a puxar a manga da sua blusa: –Pão, vovó! Pão. – E chorou de novo. Quando Elissei ia fazer uma pergunta à velha, o mujique entrou na choupana, andou se escorando na parede e quis sentar no banco, mas não conseguiu chegar e arriou o corpo na soleira da porta, no canto. Sem tentar levantar-se, falou. Arrancava uma palavra de cada vez ? falava, respirava, falava outra. –Deu uma doença – disse ?, e a fome. Ele está morrendo de fome! – O mujique balançou a cabeça na direção do menino e começou a chorar. Elissei tirou o saco do ombro, soltou as alças dos braços, baixou o saco no chão, depois colocou em cima do banco e começou a desamarrar. Desamarrou, pegou pão, faca, cortou um pedaço, deu ao mujique. O mujique não pegou, mas apontou para o menino e para a menina. –Dê para eles. Elissei deu para o menino. O menino sentiu o cheiro do pão, esticou-se, agarrou o pedaço com as duas mãos, enfiou o nariz no pedaço de pão. Uma menina saiu de trás da estufa, cravou os olhos no pão. Elissei deu um pedaço para ela. Cortou mais um pedaço e deu para a velha. A velha também pegou, começou a mascar. –Quem dera tivesse água – disse ?, as bocas estão rachadas de secas. Eu mesma quis trazer hoje, ou foi ontem, não lembro, mas caí, não aguentei, e o balde ficou lá, se ninguém pegou. Elissei perguntou onde ficava o poço. A velha explicou. Elissei foi até lá, achou o balde, trouxe água, deu de beber àquela gente. As crianças comeram mais pão com água e a velha também comeu, mas o mujique não comeu. –Não posso – disse. A mulher não se levantou, continuava desacordada, apenas se revirava em cima da cama. Elissei foi ao armazém da aldeia, comprou painço, sal, farinha, manteiga. Achou um machadinho, cortou lenha, acendeu o fogo na estufa. A menina começou a ajudá-lo. Elissei cozinhou uma sopa e kacha, deu de comer àquela gente. V O mujique comeu um pouquinho, a velha comeu, a menina e o menino rasparam a tigela e caíram abraçados para dormir. O mujique e a velha começaram a contar o que tinha acontecido com eles. ?A gente é pobre, mas ia vivendo – disseram ?, mas aí a plantação não deu nada, no outono a gente comeu o que ainda sobrava. A gente comeu tudo, começamos a pedir aos vizinhos e a pedir para pessoas bondosas. No início, davam, depois começaram a negar. Uns ficariam contentes de dar, mas também não tinham nada. E também a gente começou a ter vergonha de pedir: todo mundo estava em dificuldade, sem dinheiro, sem farinha, sem pão. Procurei trabalho para mim – disse o mujique ?, mas não tem trabalho. O povo, em toda parte, se oferece para trabalhar só pela comida. Um dia de trabalho, dois dias andando para achar trabalho. A velha e as crianças começaram a pedir esmola, iam para longe. A esmola era ruim, ninguém tinha pão. Mesmo assim a gente comia uma coisa aqui, outra ali, a gente pensava: vamos aguentar assim até a próxima colheita. Mas na primavera pararam de dar e aí veio uma doença. A coisa ficou de mal a pior. A gente comia um dia e ficava dois sem comer. Começamos a comer capim. Por causa do capim ou por alguma outra coisa, a mulher ficou doente. Ficou de cama e eu não tenho mais forças – disse o mujique. – Não tenho como dar um jeito. –Fiquei sozinha ? disse a velha ?, fiz o que pude, mas, sem ter o que comer, fiquei enfraquecida. A menina também ficou fraca e é acanhada. Mandamos que fosse para a casa do vizinho e ela não foi. Se enfiou num canto e ficou quieta. Anteontem veio a vizinha, mas viu que a gente estava doente e com fome, deu as costas e foi embora. Na casa dela, o marido foi embora e os filhos pequenos não têm o que comer. Assim, ficamos deitados, esperando morrer. Elissei ouviu o que contaram e desistiu de alcançar seu camarada naquele mesmo dia, resolvendo que ia passar a noite ali. De manhã, Elissei levantou, começou a trabalhar na casa, como se ele mesmo fosse o dono. Ele e a velha fizeram a massa para o pão, acenderam a estufa. Elissei foi com a menina à casa da vizinha arranjar o que fosse necessário. Faltava tudo, não tinha mais nada, tudo tinha sido vendido: nem objetos domésticos nem roupa, não tinha nada. E Elissei começou a providenciar o que era necessário: algumas coisas ele mesmo fazia, outras, comprava. Assim Elissei passou um dia, outro dia, e o terceiro. O menino ficou bom, andava em cima do banco, fazia carinho em Elissei. A menina ficou muito alegre, ajudava em tudo. Os dois corriam atrás de Elissei: –Tio! Titio! A velha também se recuperou, foi para a casa da vizinha. O mujique começou a andar apoiado na parede. Só a mulher mais nova continuava de cama, mas até ela, no terceiro dia, acordou e pediu para comer. “Bem”, pensou Elissei, “eu não contava ficar aqui tanto tempo, agora está na hora de partir.” VI O quarto dia era o da primeira refeição depois do jejum e Elissei pensou: “Vou fazer a refeição santa com eles, compro alguma coisa para a festa e de tarde vou embora”. Elissei foi de novo à aldeia, comprou leite, farinha branca, sal. Cozinharam, assaram, ele e a velha, e de manhã Elissei foi à missa, chegou, quebrou o jejum com os outros. Nesse dia, a mulher mais nova também levantou, começou a andar. O mujique raspou a barba, vestiu uma camisa limpa – a velha tinha lavado ?, foi à aldeia pedir um favor a um mujique rico. Um pasto e um campo lavrado do mujique estavam arrendados ao mujique rico e assim ele foi perguntar se não podia deixar que ele usasse o pasto e o campo antes do prazo. Voltou à tarde abatido e chorou. O mujique rico não atendeu, disse: –Traga dinheiro. Elissei se pôs a pensar outra vez. “Como eles vão viver agora? Os outros vão ceifar, eles não têm nada: o campo está arrendado. O centeio vai madurar, os outros vão colher (e como deu bem a mãezinha terra!), mas eles não têm nada o que esperar: sua dessiatina de terra está arrendada para o mujique rico. Se eu for embora, eles vão ficar de novo do jeito que estavam.” E Elissei ficou num dilema e não foi embora à tarde – adiou para a manhã seguinte. Foi dormir no lado de fora da casa. Rezou, deitou, mas não conseguiu dormir: precisava ir – já havia gastado muito dinheiro e muito tempo, mas aquela gente dava pena. “É claro que não dá para ajudar todo mundo. Eu quis dar um pouco de água e um pedaço de pão e olhe só onde fui parar. Agora já vou resgatar um pasto e um campo lavrado. Feito isso, vou ter de comprar uma vaca para as crianças e um cavalo para o mujique transportar os feixes. Pelo visto, você se enrolou todo, meu caro Elissei. Perdeu o rumo e agora não sabe para que lado vai!” Elissei levantou-se, pegou o caftã que estava usando como travesseiro, desdobrou, pegou a tabaqueira, cheirou, tentou clarear as ideias, mas não conseguiu: pensava, pensava e não chegava a lugar nenhum. Tinha de ir embora, mas sentia pena daquelas pessoas. Não sabia o que fazer. Enrolou o caftã embaixo da cabeça e deitou de novo. Ficou deitado muito tempo, os galos começaram a cantar e então ele pegou no sono. De repente teve a impressão de que alguém o acordou. Elissei viu que parecia estar todo vestido, com um saco e um bordão, e tinha de atravessar o portão, o portão estava aberto, mas só tinha espaço para passar um homem. E ele foi para o portão e ficou bloqueado de um lado pelo saco, quis soltar-se, acabou preso do outro lado pela perneira, e a perneira acabou desamarrando. Começou a soltar-se, mas foi seguro de novo, não pelo portão, mas pela menina, que o segurava e gritava: –Tio, titio, pão! Ele olhou para os pés, mas o menino o agarrava pela perneira, a velha e o mujique olhavam pela janela. Elissei acordou, começou a falar consigo mesmo: “Amanhã vou pagar o resgate do pasto e do campo lavrado, vou comprar um cavalo e farinha que dê até a colheita e também vou comprar uma vaca para as crianças. Senão, vou buscar Cristo do outro lado do mar e acabo perdendo Cristo dentro de mim mesmo. É preciso resolver a situação dessa gente!”. E Elissei dormiu até de manhã. Acordou cedo. Foi falar com o mujique rico – resgatou o pasto e deu dinheiro também para o campo lavrado. Comprou uma gadanha – também tinham vendido a gadanha ? e voltou para casa. Mandou o mujique ceifar e foi falar com os outros mujiques: procurou com o taberneiro um cavalo e uma carroça à venda. Acertou o preço, comprou, também comprou um saco de farinha, colocou na carroça e foi comprar uma vaca. No caminho, cruzou com duas mulheres. Elas andavam e conversavam uma com a outra. Elissei ouviu o que diziam, na sua língua, e entendeu que estavam falando dele. ?Pois é, no início ninguém sabia quem era: achavam que era um homem comum. Dizem que queria beber água e acabou vivendo lá. E comprou uma porção de coisas para eles. Eu mesma vi hoje que comprou um cavalo e uma carroça. A gente nem acredita que existe gente assim no mundo. Só vendo, mesmo. Elissei ouviu aquilo, entendeu que o estavam elogiando e não foi comprar a vaca. Voltou à taberna, deu o dinheiro do cavalo. Atrelou e foi para a choupana com a farinha. Aproximou-se do portão, parou e desceu da carroça. Os donos da casa viram o cavalo, ficaram admirados. E pensaram que ele havia comprado o cavalo para eles, mas não tinham coragem de dizer. O mujique veio, abriu o portão. –Onde arranjou esse cavalo, vovô? –Comprei – respondeu. – Saiu barato. Corte um pouco de capim e coloque na gamela para ele comer de noite. E leve o saco para dentro. O mujique desatrelou o cavalo, levou o saco para o celeiro, cortou capim e pôs na gamela. Foram dormir. Elissei deitou do lado de fora, tinha carregado seu saco a tarde toda. Todo mundo adormeceu. Elissei levantouse, amarrou seu saco, calçou as perneiras, vestiu o caftã e seguiu caminho atrás de Efim. VII Elissei percorreu umas cinco verstas. Começou a clarear. Sentou embaixo de uma árvore, desamarrou o saco, começou a contar o dinheiro. Terminou de contar, sobravam dezessete rublos e vinte copeques. “Bem”, pensou, “com isso não dá para chegar ao mar! E pedir esmola em nome de Cristo vai ser um pecado ainda maior. O compadre Efim vai chegar lá sozinho e vai acender uma vela por mim. Pelo visto, não vou cumprir minha promessa antes de morrer. Ainda bem que o Senhor é misericordioso, sabe perdoar.” Elissei levantou-se, pôs o saco sobre os ombros e voltou. Contornou a aldeia para que as pessoas não o vissem. E Elissei logo chegou a sua casa. Quando havia partido de lá, tinha achado difícil e cansativo acompanhar a marcha de Efim; mas quando voltou, Deus lhe deu forças e Elissei andou sem conhecer cansaço. Caminhava ligeiro, balançando o cajado, percorria setenta verstas por dia. Elissei chegou em casa. Já tinham acabado a colheita. Ficaram contentes de ver seu velho de volta, fizeram perguntas: o que tinha acontecido, por que havia se separado de seu camarada, por que não foi até o fim e voltou para casa. Elissei não contou. –Deus não quis – respondeu. – Perdi o dinheiro na estrada, fiquei muito para trás de meu camarada. Aí não fui mais. Que Cristo me perdoe! E deu o resto do dinheiro para a velha. Elissei perguntou para as pessoas de casa como andava o trabalho: tudo estava bem, todas as tarefas tinham sido cumpridas, não houve relaxamento, todos viviam em paz e em concórdia. No mesmo dia, os familiares de Efim souberam que Elissei tinha voltado e vieram perguntar sobre seu velho. E Elissei também disse para eles: –O seu velho andou muito, nos separamos três dias antes do dia de Petrov – disse ele. – Eu queria alcançar o Efim, mas aconteceu uma porção de coisas: perdi o dinheiro e não tinha mais como viajar, por isso voltei. O povo ficou admirado: como um homem tão inteligente tinha feito uma coisa tão tola – viajou e não chegou ao final, só conseguiu perder o dinheiro. Ficaram admirados e depois esqueceram. Elissei também esqueceu. Retomou o trabalho em casa: com o filho, começou a preparar a lenha para o inverno; com as mulheres, debulhou o cereal, refez o telhado do celeiro, cuidou das abelhas, entregou ao vizinho as dez colmeias que tinha vendido e mais suas crias. Sua velha quis esconder quantos enxames tinham nascido das colmeias, mas Elissei sabia de quais colmeias tinham nascido os enxames e entregou ao vizinho dezessete colmeias, em vez de dez. Elissei deixou tudo organizado para o inverno, mandou o filho arranjar trabalho e ele mesmo foi trançar palhas para fazer alpercatas e cortar cepos para as abelhas fazerem colmeias. VIII Durante todo aquele dia em que Elissei ficou na choupana com as pessoas doentes, Efim esperou seu camarada. Não se afastou muito e sentou. Esperou, esperou, cochilou, acordou, continuou sentado – e nada de seu camarada. Olhava o tempo todo. O sol já baixara por trás das árvores – e nada do Elissei. “Talvez ele tenha passado por mim”, pensou, “ou quem sabe alguém o levou numa carroça e ele passou enquanto eu dormia e nem me viu. Mas é impossível não me ver. Na estepe, a gente enxerga tudo de longe. Mas e se eu voltar e ele já estiver indo na frente? Vamos nos desencontrar e vai ser ainda pior. Vou em frente, vamos nos encontrar na pousada.” Chegou a uma aldeia, pediu ao vigia que, se chegasse um velhinho assim e assado, levasse para a mesma choupana em que ele estava. Elissei não chegou à pousada. Efim foi em frente, perguntou para todo mundo: não tinham visto um velhinho careca? Ninguém tinha visto. Efim se admirou e foi em frente. “Vamos nos encontrar em Odessa e no navio”, pensou, e depois parou de pensar. No caminho, encontrou um peregrino. O peregrino de gorro de padre, sotaina e de cabelo comprido tinha ido ao monte Atos e ia pela segunda vez a Jerusalém. Encontraram-se numa pousada, conversaram e seguiram caminho juntos. Chegaram bem a Odessa. Esperaram três dias pelo navio a vapor. Muitos romeiros esperavam. Vinham de vários lugares. Efim perguntou de novo a respeito de Elissei – ninguém tinha visto. Efim conseguiu um passaporte de estrangeiro – custou cinco rublos. Pagou quarenta rublos por uma passagem de ida e volta para Jerusalém, comprou pão e arenque para a viagem. O navio foi carregado, os romeiros embarcaram e Tarassitch ficou instalado junto com o peregrino. Levantaram âncora, soltaram as amarras, o navio se lançou ao mar. A viagem correu bem durante o dia; ao anoitecer, bateu um vento, choveu, o navio começou a balançar e a inundar. O povo se alvoroçou, as mulheres começaram a gritar e os homens mais fracos começaram a correr pelo navio, em busca de um local para se abrigar. O medo também contagiou Efim, só que ele não demonstrava: ficou sentado no chão, junto com uns velhos de Tambov, no mesmo lugar, a noite inteira e o dia inteiro; eles seguravam seus sacos e não falavam nada. No terceiro dia, o tempo melhorou. No quinto dia, chegaram a Tsargrad. Alguns peregrinos desembarcaram e foram ver o templo de Santa Sofia, o templo da Sabedoria, agora sob o domínio dos turcos. Tarassitch não foi, ficou no navio. Apenas comprou pão ázimo. Ficaram ali um dia e uma noite e saíram ao mar outra vez. Pararam ainda na cidade de Esmirna, na cidade de Alexandria e viajaram com tranquilidade até a cidade de Jafa. Em Jafa, todos os peregrinos desembarcaram: eram setenta verstas de caminhada até Jerusalém. No desembarque, o povo também foi tomado pelo medo: o navio era alto e as pessoas eram jogadas em botes lá embaixo, os botes balançavam muito e as pessoas tinham medo de cair, não dentro do bote, mas fora; dois homens acabaram se molhando, mas todos foram levados a salvo para a margem. Desembarcaram e seguiram a pé; no terceiro dia, chegaram a Jerusalém na hora do almoço. Efim e o peregrino ficaram na periferia da cidade, num albergue russo, assinaram os passaportes, almoçaram e foram aos lugares santos. No Santo Sepulcro, ainda não estavam deixando entrar. Foram ao convento do patriarca, ali se reuniram todos os romeiros, separaram as mulheres e só deixaram entrar os homens. Mandaram que ficassem descalços e sentados em círculo. Veio um monge com uma toalha e começou a lavar os pés de todos; lavou, enxugou e beijou os pés de todos no círculo. Também enxugou e beijou os pés de Efim. Assistiram às missas das vésperas e das matinas, rezaram, acenderam velas, entregaram santinhos com os nomes dos pais para serem lembrados nas preces. Comida e vinho foram servidos ali. De manhã, foram à cela do mosteiro de Maria do Egito, onde ela foi salva. Acenderam velas, fizeram orações. De lá foram ao mosteiro de Abraão. Viram o jardim onde Abraão foi sacrificar a Deus o próprio filho. Depois foram ao lugar onde Cristo apareceu para Maria Madalena e à igreja de Jacó, irmão do Senhor. O peregrino mostrou todos os lugares para Efim e, em cada um deles, sempre dizia quanto dinheiro era preciso dar e onde pôr. Na hora do jantar, voltaram para a pousada, comeram. E quando começaram a se arrumar para dormir, o peregrino se assustou, começou a revirar suas roupas, vasculhar. –Fui roubado – disse. – Eu tinha um porta-moedas com dinheiro, rublos: duas notas de dez e três moedas. O peregrino reclamou, reclamou, não havia nada a fazer – deitaram e foram dormir. IX Efim deitou para dormir e lhe veio uma tentação. “Não roubaram o dinheiro do peregrino”, pensou. “Acho que ele nem tinha dinheiro. Não deu dinheiro em lugar nenhum. Dizia para eu dar, mas ele mesmo não dava, e até me pediu um rublo emprestado.” Efim pensou assim e começou a repreender a si mesmo: “Como posso julgar um homem? Isso é um pecado. Vou parar de pensar”. Assim que adormeceu, começou de novo a lembrar que o peregrino olhava fixamente para o dinheiro e a maneira estranha como tinha dito que haviam roubado seu porta-moedas. “Ele não tinha dinheiro”, pensou Efim. “É só para despistar.” De manhã, se levantaram e foram para a missa matinal no grande templo da Ressurreição – onde fica o Santo Sepulcro. O peregrino não se afastava de Efim, andava sempre junto com ele. Chegaram ao templo. O povo – peregrinos e romeiros, russos e de todos os povos, gregos, armênios, turcos e sírios – era muito numeroso. Efim chegou aos Portões Sagrados com o povo. Um monge os guiava. Passou com eles pelas sentinelas turcas rumo ao local onde o Salvador foi retirado da cruz e ungido e onde havia nove castiçais grandes com velas acesas. O monge mostrava e explicava tudo. Efim acendeu uma vela ali. Em seguida o monge conduziu Efim para cima, por uma escada à direita, rumo ao Gólgota, o lugar onde a cruz foi colocada; ali Efim rezou. Depois lhe mostraram a fenda onde a terra descera até o inferno; depois mostraram o lugar onde pregaram à cruz as mãos e os pés de Cristo; depois mostraram o túmulo de Adão, onde o sangue de Cristo foi derramado sobre os ossos de Adão. Depois chegaram à pedra onde Cristo sentou quando lhe puseram a coroa de espinhos; depois, ao poste em que Cristo foi amarrado, quando O espancaram. Depois Efim viu a pedra com dois furos para os pés de Cristo. Quiseram ainda lhe mostrar mais alguma coisa, mas o povo se alvoroçou: todos se dirigiram depressa para a própria caverna do Santo Sepulcro. Tinha acabado a missa dos outros e começava a missa ortodoxa. Efim se dirigiu com o povo para a caverna. Quis livrar-se do peregrino – continuava a pecar em pensamento contra ele –, mas o peregrino não saía de perto dele, ia com ele a toda parte e foi também à missa no Santo Sepulcro. Eles quiseram ficar mais na frente, mas não deu tempo. O povo estava tão espremido que era impossível se mover para a frente ou para trás. Efim ficou parado, de pé, olhava para a frente, rezava, e de vez em quando apalpava seu porta-moedas. Seu pensamento se dividia: primeiro pensava que estava enganado a respeito do peregrino; depois pensava que, se não estava enganado e se o peregrino tinha sido roubado de fato, o mesmo poderia acontecer com ele. X Assim, Efim ficou rezando, olhando para a frente, na capela onde ficava o Santo Sepulcro e, sobre o sepulcro, ardiam trinta e seis lampiões. Efim estava parado, olhava entre as cabeças e viu algo espantoso! Bem embaixo dos lampiões, onde ardia o fogo sagrado, na frente de todos, viu um velho numa túnica de burel e com a careca reluzente, na cabeça inteira, como a de Elicha Bodrov. “Parece o Elissei”, pensou. “Mas não pode ser ele! É impossível que tenha chegado na minha frente. O navio que veio na frente do nosso partiu uma semana antes. É impossível que tenha embarcado. E não estava no nosso navio. Eu vi todos os peregrinos.” Assim que Efim pensou aquilo, o velhinho começou a rezar e curvou-se três vezes: uma vez à frente, para Deus, e depois para os dois lados, para o povo ortodoxo. E quando o velhinho virou a cabeça para a direita, Efim o reconheceu. Era mesmo ele, Bodrov – a barba preta, crespa, grisalha nas bochechas, as sobrancelhas, os olhos, o nariz, toda a sua fisionomia. Era ele mesmo, Elissei Bodrov. Efim alegrou-se de achar seu camarada e admirou-se por Elissei ter conseguido chegar na sua frente. “Ah, esse Bodrov”, pensou, “como conseguiu chegar na frente? Na certa encontrou alguém que o levou junto. Vou encontrá-lo na saída, me livrar desse meu peregrino e vou ficar andando só com ele, e quem sabe ele me mostra como fazer para ficar lá na frente.” E Efim olhava o tempo todo como se não quisesse perder Elissei de vista. Mas a missa terminou, o povo começou a se movimentar para beijar o sepulcro, e o aperto aumentou, empurraram Efim para o lado. De novo lhe veio o medo: “Será que vão pegar meu porta-moedas?”. Segurou firme o porta-moedas com a mão e começou a abrir caminho com dificuldade, só pensando em se livrar da aglomeração. Conseguiu sair, andou para um lado e para outro, procurou Elissei ali e no templo. Nas celas do templo, Efim viu muita gente: alguns comiam ali mesmo, tomavam vinho, dormiam, liam. Mas Elissei não estava em nenhum lugar. Efim voltou para a pousada sem encontrar seu camarada. Naquela noite, o peregrino não apareceu. Foi embora sem pagar o rublo que devia. Efim ficou sozinho. No dia seguinte, Efim foi de novo ao Santo Sepulcro, com um velho de Tambov que tinha vindo no mesmo navio que ele. Tentou conseguir um lugar na frente, mas de novo foi empurrado para trás e Efim ficou junto a uma coluna e rezou. Olhou para a frente – de novo, sob os lampiões, bem junto do sepulcro do Senhor, na primeira fila, estava Elissei, de braços abertos como um padre no altar, e a careca reluzia na cabeça inteira. “Bem”, pensou Efim, “desta vez não vou perdê-lo de vista.” Abriu caminho à força para a frente. Chegou lá – Elissei não estava. Na certa tinha saído. E no terceiro dia foi ver de novo o Santo Sepulcro – no mesmo lugar sagrado, estava Elissei, com o mesmo aspecto, de braços abertos, olhando para o alto, como se visse algo acima de si mesmo. E sua careca reluzia na cabeça inteira. “Bem”, pensou Efim, “desta vez não vou perdê-lo de vista, vou ficar na saída. Lá não podemos nos desencontrar.” Efim saiu, esperou, esperou, o meio-dia passou: todo mundo passou – e nada do Elissei. Efim ficou seis semanas em Jerusalém e foi a toda parte: a Belém, a Betânia, ao rio Jordão, mandou estampar uma camisa nova no Santo Sepulcro para usar no próprio enterro, pegou água do Jordão numa garrafa, guardou um punhado de terra santa e velas que foram acesas no fogo sagrado, e nos oito lugares sagrados escreveu nomes para serem lembrados nas orações, gastou todo o seu dinheiro, menos o necessário para voltar para casa. E Efim começou a viagem de volta para casa. Chegou a Jafa, embarcou no navio, navegou até Odessa e de lá foi a pé para casa. XI Efim seguiu sozinho pelo mesmo caminho. Começou a se aproximar de casa, de novo lhe veio a preocupação: como estariam vivendo em casa sem ele. “Num ano, corre muita água”, pensou. “É preciso um século para construir uma casa, mas para demolir basta pouco tempo. Como meu filho terá resolvido os problemas sem mim, como será que foi a primavera, como será que o gado passou o inverno, e será que terminaram de construir a isbá?” Efim chegou ao lugar onde um ano antes ele havia se separado de Elissei. Não conseguiu reconhecer as pessoas. Onde um ano antes pediam esmola, agora todos viviam com fartura. A colheita tinha sido boa. O povo tinha se recuperado e esquecido a desgraça de antes. Numa tarde, Efim se aproximou da aldeia onde Elissei tinha ficado um ano antes. Assim que entrou na aldeia, uma menina de blusa branca pulou para fora de uma choupana. –Vô! Vovô! Venha à nossa casa. Efim quis seguir adiante, mas a menina não o largava, segurava sua roupa, puxava-o para a choupana e ria. Uma mulher saiu para a varanda com um menino, também acenava: –Venha, por favor, vovô, jante com a gente, passe a noite aqui. Efim foi. Pensou: “Acho que vou perguntar sobre o Elissei. Creio que foi exatamente nesta choupana que ele veio pedir algo para beber”. Efim entrou, a mulher pegou sua bolsa, lhe deu água para se lavar, sentou-o à mesa. Pegou leite, bolinhos, kacha e colocou sobre a mesa. Tarassitch agradeceu, elogiou as pessoas por receberem bem os peregrinos. A mulher balançou a cabeça. –A gente – disse ela – não pode deixar de receber bem os peregrinos. Foi um peregrino que nos ensinou a viver. A gente vivia sem pensar em Deus e Deus nos castigou de tal modo que só esperávamos morrer. No verão chegamos ao ponto de ficarmos todos deitados, doentes, sem ter o que comer. E a gente ia morrer mesmo, se Deus não nos mandasse um velhinho, assim feito você. Veio aqui beber água, mas viu a gente, teve pena e acabou morando aqui um tempo. Ele nos deu o que beber, o que comer, colocou a gente de pé outra vez, comprou terra, comprou uma carroça e um cavalo, e deixou tudo com a gente. Uma velha entrou na choupana, interrompeu a fala da mulher. –E a gente nem sabe se era mesmo um homem ou um anjo de Deus – disse ela. – Amava todo mundo, tinha pena de todo mundo e foi embora sem dizer quem era e por quem a gente ia rezar para Deus… a gente não sabe. Vejo como se estivesse na minha frente: eu estava deitada, esperando a morte, de repente olhei, um velhinho entrou, não tinha nada de mais, careca, pediu água. Eu, pecadora, ainda pensei: “Para que ele veio aqui?”. E agora olhe só o que ele fez! Assim que viu a gente, baixou a bolsa no chão, nesse lugar aí mesmo, e desamarrou. A menina também interrompeu. –Não, vovó, antes ele colocou a bolsa aqui, no meio da choupana, e depois colocou em cima do banco. E as duas começaram a discutir e a lembrar todas as palavras e ações do homem: onde sentou, onde dormiu, o que fez, o que falou para quem. De noite, o mujique dono da casa chegou, também começou a falar de Elissei, contou como tinha morado com eles. –Se ele não viesse – disse –, todos nós teríamos morrido em pecado. A gente estava morrendo em desespero, praguejando contra Deus e contra as pessoas. Mas aí ele nos pôs de pé e graças a ele reconhecemos Deus e acreditamos nas pessoas boas. Que Cristo o proteja! Antes, nós vivíamos feito bichos, ele nos transformou em gente. Deram de beber e de comer a Efim, lhe deram um lugar para dormir e eles mesmos foram deitar-se. Efim ficou deitado e não dormiu. Elissei não saía de sua cabeça, e como ele tinha visto o amigo em Jerusalém três vezes, na primeira fila. “Então foi assim que ele chegou antes de mim!” pensou. “Minhas ações podem ter sido aceitas ou não, mas as dele o Senhor aceitou.” De manhã, as pessoas se despediram de Efim, lhe deram alguns bolinhos para a viagem e foram trabalhar, enquanto Efim seguia viagem. XII Efim passou um ano fora. Na primavera, voltou para casa. Chegou à tarde. O filho não estava em casa: estava na taverna. O filho chegou embriagado, Efim começou a lhe fazer perguntas. Tudo indicava que o rapaz tinha se complicado em sua ausência. Gastou mal o dinheiro, bagunçou os negócios. O pai começou a repreendê-lo. O filho começou a dizer grosserias. Você mesmo devia ter ficado, mas foi embora para andar por aí, e ainda por cima levou todo o dinheiro, e agora vem reclamar comigo. O velho se irritou, bateu no filho. De manhã, Efim Tarassitch saiu para falar com o estaroste a respeito do filho e passou na porta da casa de Elisséiev. A velha Elisséieva estava na varandinha e cumprimentou Efim. –Bom dia, compadre – disse. – Chegou bem de viagem, amigo? Efim Tarassitch parou. –Graças a Deus – disse. – Eu me perdi do seu velho, mas ouvi dizer que já voltou para casa. E a velha começou a contar – contente de poder conversar. –Voltou, sim, o arrimo da família – disse. – Voltou já faz tempo. Logo depois da Ascensão. A gente ficou feliz por Deus nos trazer o velho de volta! Sem ele a vida é sem graça. Já não trabalha tanto, seus anos passaram. Mas que cabeça ele tem, e a gente fica mais alegre. E como nosso filho ficou contente! Diz que sem ele é como não ter luz nos olhos. Sem ele, a vida não tem graça, o querido, nós o amamos, e como temos pena dele. –Mas então ele está em casa agora? –Está em casa, compadre, no apiário, cuidando das abelhas. Estão dando muitos enxames. Deus deu tanta força às abelhas como o velho nunca viu. Deus não está nos pagando conforme nossos pecados, diz ele. Entre, compadre, ele vai ficar muito contente. Efim passou pelo corredor e atravessou o pátio rumo ao apiário, ao encontro de Elissei. Entrou no apiário, olhou – Elissei estava sem nenhuma rede protetora, sem luvas, de casaco cinzento, embaixo das bétulas, de braços abertos e olhando para cima, e a careca reluzia na cabeça inteira, do mesmo jeito como estava no Santo Sepulcro, em Jerusalém, e acima dele a luz do sol vazava através das bétulas, assim como em Jerusalém ardia a luz do fogo, e em torno da cabeça, como uma coroa, revoavam e zumbiam abelhas douradas sem picar Elissei. Efim ficou parado. A velha Elisséieva gritou para o marido. –O compadre chegou! Elissei virou-se, alegrou-se, foi ao encontro do compadre, enquanto devagarzinho retirava abelhas da barba. –Bom dia, compadre, bom dia, meu caro… Andou muito? –Os pés andaram e eu trouxe para você um pouquinho da água do rio Jordão. Vá buscar lá em casa, mas se o Senhor aceitou minhas ações… Bem, graças a Deus, e que Cristo o abençoe. Efim ficou em silêncio. –Meus pés foram lá, mas se a minha alma ou a de qualquer outra pessoa… –São coisas de Deus, compadre, coisas de Deus. –Na volta, também estive naquela choupana onde você ficou… Elissei se assustou, ficou afobado. –São coisas de Deus, compadre, coisas de Deus. Mas vamos entrar comigo na isbá, eu separei mel. E Elissei mudou de assunto, passou a falar de coisas de casa. Efim suspirou, não lembrou Elissei das pessoas na choupana nem falou que tinha visto o próprio Elissei em Jerusalém. Entendeu que, no mundo, até a morte, Deus mandou que cada um cumprisse sua parte – com amor e com boas ações. DE QUANTA TERRA PRECISA UM HOMEM (1886) I A irmã mais velha saiu da cidade e foi para o campo, visitar a irmã mais nova. A mais velha era casada com um comerciante na cidade e a mais nova, com um mujique, no campo. As irmãs estavam tomando chá, conversavam. A mais velha começou a se gabar, contar vantagem de sua vida na cidade: na cidade ela vivia e andava com mais limpeza e mais conforto, vestia bem os filhos, comia e bebia que era uma beleza e saía para passeios e festas e para ir ao teatro. A irmã mais nova começou a sentir-se ofendida e passou a falar mal da vida da mulher do comerciante e a elogiar sua vida de camponesa. –Eu não troco minha vida pela sua – disse ela. – Embora a vida da gente seja parada, a gente não sabe o que é o medo. Vocês vivem mais arrumados, ganham muito, mas podem ir à ruína de uma hora para outra. Como diz o provérbio: “O prejuízo é o irmão mais velho do lucro”. E acontece de gente que num dia é rica ter de pedir esmola no outro dia. E nossa vida de mujique é mais justa: a vida do mujique é modesta, mas é longa, não vamos ficar ricos, mas sempre vamos ter o que comer. A irmã mais velha disse: –Comer? Junto com os porcos e os bezerros! Sem roupas boas nem boas maneiras! Por mais que seu marido se mate de trabalhar, vai passar a vida toda num monte de esterco e vai morrer assim, e com os filhos vai ser a mesma coisa. –E o que é que tem? – respondeu a mais jovem. – Nosso trabalho é assim. Em compensação, vivemos com segurança, não nos curvamos diante de ninguém, não temos medo de ninguém. Já vocês, na cidade, vivem rodeados por tentações; hoje, está tudo bem, mas amanhã o Diabo aparece, olha e vai tentar seu marido com o baralho, com a bebida ou com alguma dona bonita. E tudo vai à ruína. Vai dizer que isso não acontece? Deitado em cima da estufa, Pakhom, o dono da casa, ouvia o que as mulheres diziam. –Isso é a pura verdade – disse ele. – Como a gente, desde criança, fica lavrando a terra, essas doidices não entram na nossa cabeça. Só uma coisa é ruim: a terra é pouca! Se tivesse terra à vontade, eu não tinha medo de ninguém, nem do Diabo! As mulheres terminaram de beber o chá, ficaram falando ainda sobre roupas, tiraram as louças da mesa, foram dormir. Mas o Diabo estava sentado no alto da estufa e ouviu tudo. Alegrou-se porque a mulher camponesa levou o marido a se gabar: disse que se tivesse bastante terra não teria medo nem do Diabo. “Muito bem”, pensou, “vamos medir nossas forças: vou lhe dar muita terra. E, pela terra, vou levar você comigo.” II Perto dos mujiques, morava uma pequena proprietária de terras. Tinha cento e vinte dessiatinas de terra. Antigamente, vivia em paz com os mujiques, não ofendia ninguém. Mas um soldado da reserva foi trabalhar para ela como administrador e passou a oprimir os mujiques com multas. Por mais que Pakhom tomasse cuidado, ou um cavalo fugia para a plantação de aveia, ou uma vaca entrava no jardim, ou um bezerro escapava para o pasto – e tudo tinha multa. Pakhom pagava, mas brigava com as pessoas de sua casa e batia nelas. E por causa do administrador, Pakhom cometeu muitos pecados naquele verão. Ficou até contente quando chegou o tempo de manter o gado no curral: a comida era pouca, mas pelo menos ele não precisava ter medo. No inverno, correu o boato de que a patroa ia vender a terra e que o dono de uma estalagem à beira da estrada principal pretendia comprar. Os mujiques ouviram o boato e suspiravam. “Puxa”, pensavam, “se o estalajadeiro ficar com a terra, vai aplicar multas piores do que as da patroa. Não podemos viver sem esta terra, dependemos dela.” Os mujiques foram falar com a patroa, em nome da comuna, pediram que não vendesse a terra para o estalajadeiro e desse para eles. Prometeram pagar caro. A patroa concordou. Os mujiques começaram a se organizar para comprar a terra toda em comum, para a comuna; se reuniram duas vezes e não conseguiram resolver a questão. O Diabo lançava a discórdia entre eles e assim não conseguiam entram num acordo. E os mujiques decidiram comprar em separado, cada um com o que tinha. A patroa também concordou. Pakhom soube que um vizinho tinha comprado vinte dessiatinas da patroa e que ela aceitara receber a metade do valor à vista e o resto em prestações por um ano. Pakhom sentiu inveja: “Estão comprando a terra toda”, pensou, “não vai sobrar nada para mim”. Foi pedir conselho à esposa. –As pessoas estão comprando – disse. – A gente precisa comprar umas dez dessiatinas de terra. Senão a gente não vai ter como viver: o administrador não vai dar sossego com as multas. Ficaram pensando num jeito de comprar. Tinham cem rublos guardados, venderam um potro e metade das abelhas, arranjaram um emprego para o filho, pediram um empréstimo ao cunhado e assim conseguiram reunir metade do dinheiro. Pakhom juntou o dinheiro e escolheu a terra, quinze dessiatinas com uma parte de floresta, e foi negociar com a patroa. Fecharam o negócio das quinze dessiatinas, apertaram as mãos e ele pagou a entrada. Foram à cidade, assinaram os documentos da compra, Pakhom deu metade do valor e ficou de pagar o resto em dois anos. E Pakhom ficou com a terra. Pegou sementes emprestadas, semeou a terra comprada; brotaram bem. Num ano, terminou de pagar a dívida com a patroa e com o cunhado. E Pakhom virou um senhor de terras: lavrava e semeava sua terra, ceifava o feno na sua terra, cortava lenha na sua terra e alimentava o gado na sua terra. Pakhom saía por sua terra para lavrar ou para ver a brotação e o pasto e sua alegria não tinha fim. Parecia que nela o capim crescia como em nenhum outro lugar e as flores desabrochavam como ele nunca tinha visto. Antigamente, passava por aquela terra e a terra era como a terra, mas agora a terra tinha ficado muito diferente. III Assim vivia Pakhom e se alegrava. Tudo corria bem, só que os mujiques começaram a invadir o pasto e pegar os cereais de Pakhom. Ele pediu com educação, mas os mujiques não sossegavam: ora os pastores soltavam as vacas no pasto, ora os cavalos fugiam de noite para a plantação de cereais. E Pakhom enxotava, perdoava, não denunciava na Justiça, depois acabou se aborrecendo, passou a dar queixa no tribunal do distrito. E sabia que os mujiques faziam aquilo por necessidade e não de propósito, mas pensava: “Não se pode relaxar, senão vão destruir tudo. É preciso dar uma lição”. E assim lhes deu uma lição no tribunal, e deu outra, multaram um, depois outro. Os mujiques vizinhos de Pakhom começaram a ficar com raiva dele; passaram a soltar os animais em suas terras de propósito. Teve um que, à noite, entrou na sua mata e cortou dez tílias para tirar a casca. Pakhom passou pela mata, viu uma coisa branca. Chegou perto, viu os troncos pelados caídos e os cepos cortados. Se pelo menos tivesse cortado um arbusto aqui e outro mais longe, mas o bandido cortou toda uma fileira. Pakhom se enraiveceu: “Ah, se eu pegar quem fez isso, ele vai pagar caro”. Ficou pensando e pensando em quem seria: “Mais que ninguém, deve ser o Semion”. Foi procurar na casa do Semion, não achou nada, e houve uma discussão. Pakhom ficou ainda mais convencido de que tinha sido o Semion. Deu queixa na Justiça. O tribunal convocou. Julgaram daqui e dali e deram razão ao mujique: não havia prova. Pakhom ficou ainda mais enraivecido; discutiu com os juízes e com o policial. –Vocês – disse ele – estendem a mão para os ladrões. Se vivessem conforme a Justiça, não dariam razão aos ladrões. Pakhom brigou com os juízes e com os vizinhos. Começaram a se ouvir ameaças de que iam incendiar sua casa. Pakhom passou a viver com mais largueza na terra, mas com mais opressão na comunidade. Então correu o boato de que o povo ia partir para uma terra nova. E Pakhom pensou: “Não tenho razão para sair de minha terra e também, se muitos dos nossos forem embora, vamos ter mais terra. Posso tomar a terra deles, pegar para mim; a vida vai ficar melhor. Do jeito que está, ainda sinto que tenho pouco espaço”. Certo dia, Pakhom estava em casa e chegou um mujique em viagem. Deixaram o mujique pernoitar, lhe deram comida, conversaram. De onde Deus o trazia? O mujique disse que vinha de longe, do outro lado do Volga, onde estava trabalhando. Conversa vai, conversa vem, o mujique contou que o povo estava indo morar lá. Disse: –Foram morar lá, formaram uma comuna e ganharam dez dessiatinas de terra por pessoa. E a terra é ótima – disse –, o centeio cresce tão alto que lá dentro nem dá para ver um cavalo e é tão grosso que cinco talos formam um feixe. Tinha um mujique muito pobre, chegou de mãos vazias e agora tem seis cavalos e duas vacas. O coração de Pakhom se inflamou. Pensou: “Para que viver aqui na miséria, sem espaço, se é possível viver bem? Vou vender a terra e a casa; com esse dinheiro, vou para lá e construo um negócio todo novo. Aqui, nesta falta de espaço, só tem aborrecimento. Só que antes eu preciso ir ver pessoalmente como são as coisas por lá”. No verão, preparou-se e viajou. Navegou rio abaixo pelo Volga até Samara num barco a vapor, depois percorreu quatrocentas verstas a pé. Chegou ao lugar. Tudo era exatamente como tinham dito. Os mujiques viviam com conforto, cada um tinha dez verstas de terra, e tinham ainda mais terras na comuna. E se alguém tivesse dinheiro, arrendava por três rublos uma terra de primeira, quanto quisesse, exceto a terra comum; podia arrendar quanto quisesse! Pakhom recolheu todas as informações, voltou para casa no outono, começou a vender tudo. Vendeu a terra com lucro, vendeu sua casa, vendeu todo o gado, retirou-se da comuna, esperou a primavera e partiu com a família para as terras novas. IV Pakhom chegou às terras novas com a família, inscreveu-se na comuna de uma aldeia grande. Pagou bebida para os chefes, conseguiu todos os documentos. Receberam Pakhom, separaram terras da comuna para as cinco pessoas de sua família, cinquenta dessiatinas em campos separados, além do pasto comum. Pakhom construiu, comprou gado. Só de terra da comuna, tinha três vezes mais do que antes. E a terra era excelente. Em comparação com a vida de antes, a de agora era dez vezes melhor. Para a lavoura e para a forragem, havia terra à vontade. E quanto gado quisesse. De início, enquanto construía e se instalava, Pakhom achou tudo bom, mas depois se acostumou e naquela terra também achou que tinha pouco espaço. No primeiro ano, semeou trigo na terra comum, e cresceu bem. Queria semear mais trigo, porém a terra comum era pouca. E a que havia não servia. Lá, só semeiam trigo em terra virgem ou em terra que ficou em descanso. Semeiam um ou dois anos e depois deixam a terra descansar, até o mato crescer. Muita gente queria usar aquelas terras, mas não dava para todos. Por isso também havia discussões: os mais ricos queriam semear eles mesmos, os mais pobres queriam arrendar a terra para os comerciantes, para pagarem os impostos que deviam. Pakhom queria semear mais. No ano seguinte foi falar com o negociante, arrendou terra por um ano. Semeou mais, cresceu bem; mas ficava longe da aldeia: era preciso transportar por quinze verstas. Viu que, nos arredores, mujiques negociantes viviam em fazendas próprias, enriqueciam. “Seria outra coisa”, pensou Pakhom, “se eu também comprasse uma terra minha em definitivo e construísse uma fazenda. Tudo ficaria bem perto.” E Pakhom começou a pensar num jeito de comprar terra para si em definitivo. Assim viveu Pakhom por três anos. Arrendava uma terra, semeava trigo. Os anos passaram bem, o trigo crescia bem e o dinheiro ia se amontoando. Viver ele vivia, mas Pakhom achava maçante todo ano ter de arrendar terras das pessoas, sair atrás de mais terra: onde houvesse uma terrazinha boa, os mujiques logo avançavam, tomavam tudo; se ele não corresse e arrendasse logo, não tinha onde semear. Assim, ele e o negociante arrendaram juntos, por três anos, uma pastagem de uns mujiques; e já tinha arado a terra quando os mujiques deram queixa na Justiça e o trabalho foi perdido. “Se a terra fosse minha”, pensou, “eu não tinha de me curvar para ninguém e não havia aborrecimento.” E Pakhom começou a imaginar onde comprar terra para si em definitivo. Achou um mujique. Tinha comprado quinhentas dessiatinas de terra, mas se meteu em dificuldades e agora estava vendendo barato. Pakhom começou a negociar com ele. Conversou, conversou, fechou o negócio por mil e quinhentos rublos, metade à vista e metade em prestações. Tudo já estava quase acertado, mas um negociante em viagem apareceu na casa de Pakhom para alimentar seus cavalos. Tomaram chá, conversaram. O negociante contou que estava vindo das distantes terras dos baskires. Lá, contou ele, tinha comprado dos baskires cinco mil dessiatinas de terra. E tudo aquilo só por mil rublos. Pakhom começou a fazer perguntas. O negociante explicou: –É só ficar amigo dos chefes. Distribuí umas mantas, uns tapetes, uns cem rublos, uma caixa de chá, e dei vinho para os que bebiam. E comprei a terra por vinte copeques a dessiatina. – Mostrou o documento. – A terra fica junto ao rio e o prado é todo de terra virgem. Pakhom fez mais perguntas. –As terras lá – respondeu o negociante – são tantas que a gente não percorre nem andando durante um ano: tudo é dos baskires. É um povo ingênuo, como carneirinhos. A gente pode comprar por quase nada. E Pakhom pensou: “Bem, para que vou gastar meus mil rublos para comprar quinhentas dessiatinas de terra e ainda ficar com uma dívida, se lá, por mil rublos, posso me apoderar do que quiser?”. V Pakhom perguntou como chegar lá e, assim que o negociante foi embora, preparou-se para a viagem. Deixou a casa por conta da esposa e partiu com um empregado. Foram para a cidade, compraram chá, presentes, vinho – tudo o que o negociante tinha falado. Viajaram, viajaram, percorreram quinhentas verstas. Depois de sete dias, chegaram ao acampamento dos baskires. Tudo era como o negociante havia contado. Todos viviam na estepe, junto ao riacho, em barracas de feltro. Não semeavam a terra e não comiam trigo. O gado andava solto na estepe e também as manadas de cavalos. Os potros ficavam amarrados atrás das barracas, duas vezes por dia levavam as éguas para junto deles; tiravam o leite das éguas e com o leite faziam kumis. As mulheres sacudiam o kumis e faziam queijo e os mujiques só queriam saber de beber kumis e chá, comer carne de carneiro e tocar flauta. Todos eram alegres e tranquilos, passavam o verão inteiro em festa. O povo era todo moreno e não sabiam falar russo, mas eram amigáveis. Assim que viram Pakhom, os baskires saíram das barracas e rodearam o visitante. Acharam um intérprete. Pakhom disse que tinha vindo em busca de terras. Os baskires se alegraram, pegaram Pakhom, levaram para uma barraca bonita, sentaram-no em tapetes, puseram embaixo dele almofadas macias, sentaram-se num círculo, começaram a servir chá e kumis. Mataram um carneiro e comeram carne de carneiro. Pakhom pegou os presentes na carroça e começou a distribuir para os baskires. Pakhom deu os presentes aos baskires, dividiu o chá. Os baskires ficaram contentes. Conversaram e conversaram entre si, depois mandaram o intérprete explicar. –Mandam dizer para você – explicou o intérprete – que gostaram de você e que temos o costume de fazer todas as vontades de um visitante e recompensar os presentes. Você nos presenteou; agora diga o que gostaria de ganhar de presente de nós. –Mais do que tudo, eu gostaria de ganhar terra – respondeu Pakhom. – Lá de onde eu venho, a terra é pouca e cansada e aqui vocês têm muita terra, e a terra é boa. Nunca vi outra igual. O intérprete traduziu. Os baskires conversaram e conversaram. Pakhom não entendia o que diziam, mas viu que ficaram alegres, gritavam alguma coisa, riam. Depois ficaram calados, olharam para Pakhom e o intérprete disse: ?Mandaram dizer para você que, em troca de sua bondade, vão lhe dar quanta terra quiser. É só apontar com a mão e a terra será sua. Falaram mais alguma coisa e começaram a discutir. E Pakhom perguntou o que estavam discutindo. O intérprete respondeu: –Dizem que é preciso perguntar ao chefe a respeito da terra e que sem ele não se pode fazer nada. Outros dizem que podem fazer isso sem ele. VI Os baskires discutiam, de repente apareceu um homem com chapéu de pelo de raposa. Todos ficaram calados e se puseram de pé. O intérprete disse: –Esse é o próprio chefe. Pakhom logo pegou a melhor manta que tinha trazido e mais umas libras de chá e deu para o chefe. O chefe aceitou e sentou no melhor lugar. Logo os baskires começaram a falar com ele. O velho escutou por muito tempo, inclinou a cabeça para que se calassem e começou a falar com Pakhom em russo. –Está certo, é possível – disse ele. – Escolha onde quiser. Tem muita terra. “Como vou pegar quanta terra eu quiser?”, pensou Pakhom. “É preciso ter um documento. Senão dizem uma coisa agora e depois tomam de volta.” –Muito obrigado – disse – por suas boas palavras. Afinal, vocês têm muita terra; e eu não preciso de muita. Só que eu gostaria de saber qual terra será minha. É preciso medir de algum jeito e fazer um documento para mim. Deus manda na vida e na morte. Vocês, boas pessoas, me dão a terra, mas depois seus filhos podem tomar de volta. –É verdade – disse o chefe ?, podemos fazer um documento. Pakhom disse: –Eu soube que um negociante esteve aqui. Vocês também lhe deram terras e fizeram um documento; podiam fazer a mesma coisa para mim. O chefe entendeu tudo. –Tudo isso é possível – respondeu. – Temos um escrivão e aí vamos à cidade e deixamos tudo por escrito. –E qual será o preço? – perguntou Pakhom. –Nosso preço é um só: mil rublos por dia. Pakhom não entendeu. –Como assim, por dia, que medida é essa? Quantas dessiatinas vão ser? –Não sabemos contar isso – respondeu. – Nós vendemos por dia; quanto puder contornar a pé num dia é seu, e o preço é mil rublos por dia. Pakhom ficou admirado. –Mas num dia é possível contornar muita terra – disse. O chefe riu. –Pois é toda sua! – disse. – Só tem uma condição; se num dia você não conseguir voltar ao lugar de onde partiu, você vai perder seu dinheiro. –Mas como é que vou marcar o caminho? –Vamos ficar no lugar que lhe agradar, vamos ficar parados enquanto você vai andar e dar toda a volta; vai levar uma pá, onde quiser, faça uma marca, nas curvas cave um buraco, faça um montinho com torrões de terra e depois nós vamos percorrer todos esses buracos com um arado. Pode dar a volta que quiser, só que até o pôr do sol tem de chegar ao lugar de onde partiu. O que contornar, é tudo seu. Pakhom se alegrou. Resolveram sair cedo. Conversaram um pouco, beberam mais kumis, comeram carne de carneiro, serviram mais chá; chegou a noite. Puseram Pakhom para dormir num colchão de penas e os baskires se dispersaram à noite. Prometeram reunir-se no dia seguinte de madrugada e partir a cavalo para o local escolhido antes de o sol nascer. VII Pakhom deitou-se no colchão de penas e não conseguiu dormir, não parava de pensar na terra. “Vou marcar uma grande extensão”, pensou. “Vou contornar cinquenta verstas num dia. Agora o dia dura a vida toda; em cinquenta verstas, vai ter muita terra. A que for pior eu vendo ou dou para os mujiques, a que for melhor eu mesmo pego para plantar. Contrato dois bois para puxar o arado, emprego dois trabalhadores; vou lavrar umas cinquenta dessiatinas e o resto deixo para o gado pastar.” Pakhom passou a noite sem dormir. Só adormeceu pouco antes da alvorada. Assim que dormiu, teve um sonho. Viu que estava deitado naquela mesma barraca e ouviu alguém dando gargalhadas lá fora. Quis ver quem ria daquele jeito, levantou-se, saiu da barraca e viu: o mesmo chefe baskir estava sentado na frente de uma barraca, segurava a barriga com as mãos, se sacudia e gargalhava, rindo de alguma coisa. Pakhom se aproximou e perguntou: –Do que está rindo? – E viu que não era o chefe dos baskires, mas sim o negociante que tinha aparecido em sua casa e falado sobre as terras dos baskires. E assim que Pakhom perguntou ao negociante: – Você está aqui há muito tempo? –, viu que já não era mais o negociante e sim o mesmo mujique que, muito tempo antes, tinha chegado de além do Volga. E Pakhom viu que não era mais o mujique, e sim o próprio Diabo, com chifres e cascos, que estava sentado ali e ria, e que diante dele estava deitado um homem descalço, só de camisa e calça. E Pakhom quis olhar com mais atenção para ver quem era aquele homem. E viu que era um homem morto e que era ele mesmo. Pakhom se horrorizou e teve um sobressalto. Acordou. “A gente sonha cada coisa”, pensou. Olhou em volta; viu pela porta aberta que o céu já estava branco, começava a clarear. “Tenho de acordar o povo”, pensou, “está na hora de partir.” Pakhom levantou-se, acordou seu empregado na carroça, mandou atrelar os cavalos e foi acordar os baskires. –Está na hora de ir para a estepe – disse – e tirar as medidas. Os baskires acordaram e se juntaram todos, e veio também o chefe. Os baskires começaram de novo a beber kumis, quiseram oferecer chá para Pakhom, mas ele não queria perder tempo. –Está na hora de ir – disse ?, está na hora. VIII Os baskires se reuniram e partiram, uns a cavalo, outros em carroças. E Pakhom e seu empregado foram em sua carroça, levando uma pá. Chegaram à estepe, a alvorada começava a brilhar. Foram para uma colina, xikhan, na língua dos baskires. Desceram das carroças, desmontaram dos cavalos, se reuniram num círculo. O chefe chegou perto de Pakhom e estendeu a mão. –Olhe, é toda sua – disse ?, tudo o que o olho alcança. Escolha o que quiser. Os olhos de Pakhom se iluminaram: tudo era terra virgem, plana como a palma da mão, preta como semente de papoula, e nos vales mais fundos o capim chegava à altura do peito. O chefe tirou o chapéu de pelo de raposa, colocou sobre a terra. –Olhe – disse ?, esta vai ser a marca. A partir daqui, vá até onde puder. O que contornar será tudo seu. Pakhom pegou o dinheiro, colocou dentro do chapéu, tirou o caftã, ficou só de casaco, reapertou o cinto abaixo da barriga, pendurou no peito um saco com pão, prendeu na cintura um cantil com água, apertou o cano das botas, pegou a pá com seu empregado e se preparou para ir. Pensou, pensou, que direção ia tomar – para qualquer lado era bom. Pensou: “Tanto faz, vou na direção do nascer do sol”. Voltou o rosto para o sol, espreguiçou-se, esperou que o sol aparecesse no horizonte. Pensou: “Não vou perder tempo. No frio, é mais fácil andar”. Assim que o sol surgiu no horizonte, Pakhom pôs a pá sobre o ombro e foi para a estepe. Pakhom não andava depressa nem devagar. Percorreu uma versta; parou, cavou um buraco e empilhou torrões de terra para servir de marco. Foi em frente. Começou a relaxar, começou a alargar as passadas. Distanciou-se mais, cavou mais um buraco. Pakhom olhou para trás. Sob o sol, via-se bem o xikhan, as pessoas de pé, e os aros das rodas das carroças brilhavam. Pakhom calculou que tinha percorrido cinco verstas. Começou a esquentar, tirou o casaco, jogou no ombro, seguiu em frente. Avançou mais cinco verstas. Fazia calor. Olhou para o sol – já estava na hora de comer. “Passou a primeira das quatro partes do dia”, pensou Pakhom. “É cedo para voltar. Vou ficar descalço.” Sentou-se, ficou descalço, amarrou as botas na cintura, seguiu em frente. Ficou mais fácil andar. Pensou: “Vou andar mais umas cinco verstas, aí vou virar à esquerda. Aquele lugar lá é muito bom, dá pena largar. Quanto mais longe, melhor é a terra”. Continuou a andar para a frente. Olhou para trás: o xikhan estava quase fora de vista e as pessoas pareciam formigas, como pontinhos pretos, e algo brilhava muito de leve. “Bem”, pensou Pakhom, “para este lado já peguei bastante; tenho de dar a volta. Já estou todo suado, tenho sede.” Parou, cavou mais um buraco, fez um montinho com torrões de terra, desamarrou o cantil, bebeu e fez a curva para a esquerda. Andou, andou, o capim ficou mais alto e o calor aumentou. Pakhom começou a se cansar; olhou um pouco para o sol, viu: hora do almoço. “Bem”, pensou, “tenho de descansar.” Pakhom parou, sentou-se. Comeu pão com água, mas não se deitou; pensou: “Se deitar, pego no sono”. Ficou um pouco sentado, continuou a andar. No início, andou ligeiro. A comida lhe deu força. Mas logo o calor aumentou muito e o sono pesava; no entanto não parava de andar e pensava: uma hora de sofrimento, cem anos de vida. Ainda avançou muito naquela direção, quis fazer outra curva para a esquerda, mas olhou – um pequeno vale úmido; dava pena deixar aquilo para trás. Pensou: “Ali, o linho vai crescer bem”. Seguiu reto de novo. Apossou-se do pequeno vale, cavou um buraco no fim do vale, fez outra curva. Pakhom olhou para trás, para o xikhan: o calor nublava a visão, algo ondulava no ar e, através da névoa, quase não se viam as pessoas sobre o xikhan – até lá, dava umas quinze verstas. “Puxa”, pensou Pakhom, “peguei dois lados bem compridos, tenho de encurtar o próximo.” Seguiu pelo terceiro lado, começou a aumentar as passadas. Olhou para o sol – já se aproximava a hora do lanche e ele tinha percorrido ao todo duas verstas do terceiro lado. E faltavam as mesmas quinze verstas até o ponto de chegada. “Não”, pensou, “apesar de minha terra ficar enviesada, tenho de voltar depressa e em linha reta. Senão vou longe demais. E já estou com terra bastante.” Pakhom cavou um buraco depressa e voltou direto para o xikhan. IX Pakhom seguiu em linha reta para o xikhan e já tinha dificuldade para andar. Estava coberto de suor, os pés descalços estavam cortados e doloridos e as pernas começavam a fraquejar. Tinha vontade de descansar, mas não podia – precisava andar ligeiro para chegar antes do crepúsculo. O sol não esperava e baixava cada vez mais. “Ah”, pensou, “será que me enganei, será que peguei terra demais? O que vai acontecer se eu não conseguir chegar a tempo?” Olhou de relance para a frente, na direção do xikhan, olhou para o sol: o local de chegada estava longe e o sol já estava perto do horizonte. Assim, Pakhom andava com dificuldade e não parava de alargar as passadas. Andou, andou – continuava longe; começou a correr. Largou o casaco, as botas, o cantil, largou o chapéu, só ficou segurando a pá, na qual se apoiava. “Ah”, pensou, “cobicei demais, perdi tudo, não vou chegar a tempo.” E com o medo, sua respiração ficou ainda mais difícil. Pakhom corria, a camisa e a calça suadas se colavam ao corpo, a boca estava seca. O peito arquejava como um fole de ferreiro, o coração batia como um martelo e as pernas pareciam não ser suas – arqueavam. Pakhom ficou apavorado; pensou: “Vou acabar morrendo de tanto esforço”. Tinha medo de morrer, mas não podia parar. “Se parar agora depois de correr tanto”, pensou, “vão me chamar de imbecil.” Correu, correu, já estava mais perto e ouviu: os baskires assoviavam, berravam, e seus gritos inflamaram ainda mais o coração de Pakhom. Ele correu com suas últimas forças e o sol já se aproximava do horizonte, se escondia atrás de uma nuvem; ficou grande, vermelho, sangrento. Agora começava a se pôr. O sol estava próximo e o ponto de partida não estava distante. Pakhom viu que o povo sobre o xikhan acenava para ele com as mãos, o incentivava. Viu o chapéu de pelo de raposa sobre a terra e viu o dinheiro dentro dele; viu também o chefe, viu que estava sentado na terra, as mãos sobre a pança. E Pakhom lembrou-se do sonho. “Terra, tenho muita”, pensou, “mas será que Deus vai permitir que eu viva nela? Ah, eu me matei, não vou chegar lá.” Pakhom olhou de relance para o sol e ele já havia tocado na terra, já tinha começado a sumir atrás do horizonte, que cortava o sol em forma de arco. Pakhom recorreu a suas últimas energias, inclinou o corpo para a frente, só a muito custo conseguia equilibrar-se nas pernas e não cair. Pakhom corria para o xikhan, de repente tudo ficou escuro. Olhou – o sol tinha se posto. Pakhom suspirou. “Meu esforço foi em vão”, pensou. Quis parar, mas ouviu que todos os baskires gritavam e lembrou-se de que, de baixo, lhe parecia que o sol tinha se posto, mas visto de cima do xikhan, o sol ainda não baixara de todo. Pakhom respirou fundo, correu subindo o xikhan. No xikhan, ainda estava claro. Pakhom subiu correndo, viu o chapéu. O chefe estava sentado na frente do chapéu, gargalhava, as mãos seguravam a pança. Pakhom lembrou-se do sonho, suspirou, as pernas se dobraram e ele tombou para a frente, segurando o chapéu com as mãos. –Ah, muito bem! – exclamou o chefe. – Pegou muita terra! O empregado de Pakhom veio correndo, quis levantá-lo, mas estava saindo sangue de sua boca e ele jazia morto. Os baskires estalaram a língua, para exprimir pena. O empregado pegou a pá, cavou uma cova para Pakhom, exatamente o espaço que ocupava dos pés à cabeça – três archin ? e o enterrou. – –